Dia da consciência negra: fortalecer a luta da classe trabalhadora contra o Estado burguês e racista!

19/11/2018

nota

O dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, é uma data escolhida para relembrar a luta dos negros e negras por melhores condições de vida e pela igualdade social e racial. A data é a da morte de Zumbi dos Palmares – figura guerreira na história de resistência contra a escravidão no Brasil. Durante o período colonial, os negros foram sequestrados de suas terras, tribos, nações e reinos na África, comercializados e duramente explorados ao longo dos 354 anos de escravidão legalizada.

O regime escravista cai em 1888, mas não por decreto: cai pela conjunção da necessidade de haver força de trabalho livre para o Capitalismo em desenvolvimento e por fatores sociais internos, postos pelos crescentes motins que esquentaram pela mão negra – o barril de pólvora que sempre foi a sociedade brasileira, composta majoritariamente por negros(as). Mas nessa inicial regulamentação da relação Capital x Trabalho, os negros foram jogados à própria sorte com o projeto de marginalização programada do Império: foram-lhes dadas as ruas e encostas, sem o direito de posse de terras e submetido aos piores trabalhos, visto que o governo optou pela política da Imigração europeia e o homem branco como futuro trabalhador brasileiro. Um dos objetivos era o de apagar da história nosso passado de escravidão e obrigar a população negra – quando passaram a ser minimamente integrados à nova ordem – a se submeter à mais vil exploração do capital na classe trabalhadora brasileira.

A exploração econômica possui uma particularidade determinante no Brasil negro, sendo o racismo elemento estruturante da base econômica e social de nosso capitalismo. Essa particularidade racista e de história escravista se mantém até hoje – a população negra ocupa os cargos de trabalho mais precarizados, recebe menores salários e possui os piores indicadores sociais, com menos acesso à educação, saúde, moradia, cultura e oportunidades de ascensão profissional. Com precário acesso aos direitos sociais, integram as fileiras do subemprego, da miséria e, muitas vezes, da criminalidade, sendo diariamente culpabilizados por isso. Segundo o IBGE (2017), negros são 64% dos desempregados, 66% dos domésticos e 67% dos ambulantes.

O Brasil é um país racista e o racismo se mostra como um mecanismo de dominação da classe burguesa, permitindo uma superexploração dos trabalhadores negros, dividindo e criando barreiras entre os próprios trabalhadores. Do crescimento e fortalecimento dos movimentos de resistência, a população negra conquistou alguns direitos sociais, ainda que não tenham garantido uma transformação substancial na realidade das universidades e concursos públicos. Frágeis e facilmente ameaçados, os direitos conquistados a partir de muita luta hoje são vítimas de ataques explícitos e correm sérios riscos de serem arrancados da população.

Bolsonaro: compromisso com a burguesia, e não com a classe trabalhadora!

O recém-eleito Presidente da República Jair Bolsonaro revela uma face explícita e cruel do racismo brasileiro. Bolsonaro nega que exista uma dívida histórica com a população negra e dá sinal verde para o aprofundamento do genocídio dessa população, sob a capa do combate ao crime organizado. No país em que no período de uma década (2006 a 2016) a taxa de homicídios de negros cresceu 23,1%, e onde 76,2% das vítimas em atuação da polícia são negras, propostas como a de ampliar o uso do excludente de ilicitude aos casos de letalidade da ação policial se configuram como uma declaração de guerra aberta aos filhos pretos da classe trabalhadora. Ao mesmo tempo em que as propostas de flexibilização do Estatuto do Desarmamento caminham na esteira do aprofundamento da taxa de homicídios de mulheres negras que, nesse mesmo período, foi 71% superior à de mulheres não negras.1

O crescimento da violência contra a população preta não vem de agora. No estado da Bahia, por exemplo, no período de 2005 e 2015 o número de negros assassinados cresceu 118%². Mais do que apenas motivadas por discursos de ódio, as condições que levam à produção da morte nas periferias envolvem o crescimento do processo de exclusão, a partir do enfraquecimento das políticas públicas e da necessidade de eliminação dos grupos que não se adaptam à agenda neoliberal. Nos últimos 14 anos, o Governo federal também vem investindo volumosos recursos financeiros na militarização da Política de Segurança Pública, o que colabora com o aumento exponencial dos índices de letalidade na ação policial em todo o país. Guiados por um doutrina racial que legitima a morte em grande escala de jovens negros, o resultado da truculência do Estado é certo – fortalece e incrementa o genocídio da população negra.

Bolsonaro e qualquer outro que sente na cadeira de chefe do executivo, seja federal ou estadual, tem compromissos não somente com sua base eleitoral, mas principalmente com a administração da máquina estatal. O estado burguês é o instrumento pelo qual a burguesia exerce sua dominação e mantém o status quo. O compromisso de Bolsonaro e dos demais gestores dos interesses burgueses não é com a melhora nas condições de vida da população, mas sim com a garantia dos lucros dos bancos e das grandes empresas. As primeiras manifestações sobre seu governo já colocam como prioridade o avanço da reforma da previdência, que aumenta o tempo de contribuição e condena a população a morrer trabalhando. Além disso, Bolsonaro quer universalizar o trabalho informal com a carteira de trabalho “verde e amarela”, que não segue a CLT e obriga o trabalhador a escolher entre ou ter direitos, ou ficar desempregado.

Bolsonaro já possui também uma linha política em relação à questão racial brasileira. Para além da manutenção da coerção e a exploração dos pretos e pretas – que ocorre no Brasil desde a colônia -, na reta final do segundo turno se evidenciou uma linha de caráter ideológico frente à problemática racial. Isso se mostrou com o discurso “minha cor é o Brasil”, que remonta à farsa da democracia racial, conceito criado no estado novo para atenuar as contradições raciais brasileiras, em um período em que a polarização racial no mundo capitalista chegava ao seu momento mais emblemático, com o apartheid na África do Sul e EUA.

A democracia racial, além de positivar a escravidão do colonialismo português, também cria a ideia de que o (a) negro (a) no Brasil tem as mesmas oportunidades que o restante da população não negra. Afirma ainda que o Brasil é um país miscigenado e que, por isso, o racismo é inexistente, não existindo diferenças raciais na estrutura da sociedade de classes. Esse discurso foi enraizado no pensamento social brasileiro, tanto pelo estado novo, como durante a ditadura militar. Bolsonaro utilizará do mesmo argumento no poder executivo, na justificativa de tirar “privilégios” da população negra, afirmando que extinguirá as demarcações de terras para indígenas e quilombolas, processo que já era barrado pelo estado brasileiro desde o governo Dilma, ameaçando ainda mais os poucos direitos sociais conquistados pelo movimento negro brasileiro.

Em um país em que mais da metade da população é negra e o racismo se expressa de modo intenso – apesar de às vezes sofisticadamente disfarçado – precisamos urgentemente somar forças com a classe trabalhadora para formular as pautas emergentes dessa sua fração majoritária. A classe trabalhadora brasileira é negra, não se identifica enquanto tal, e morre mais cedo que os brancos por conta principalmente das políticas repressoras e racistas do Estado. A Reforma Trabalhista, a Reforma da Previdência e a sofisticação do aparato militar e policial de vigilância e punição pesarão muito mais para nossos(as) irmãos(as) de classe negros(as), visto que, para além da exploração, precisam sobreviver no dia-a-dia. Diante disso, não resta dúvidas de que vivemos em um país em que a consciência racial e sua disputa devem preencher um papel importantíssimo na agenda da esquerda revolucionária.

A saída é na luta!

O próximo período não será fácil para a resistência organizada. A reação se revela na população enraivecida e ansiosa por preservar as pequenas migalhas recebidas pelos governos de conciliação. Mas essa vontade de preservar direitos vem combinada com a despolitização gerada pelo apassivamento dos trabalhadores, dando contorno a um caos onde, no geral, a classe trabalhadora tão somente consegue exigir genericamente pautas como “mais saúde”, “maior segurança”. Isso se concretiza, contraditoriamente, na repressão cada vez maior dos movimentos do operariado e no extermínio da juventude negra.

Bolsonaro é o resultado lapidado, grotesco e desprezível do apassivamento de classes no Brasil e expressa o atraso que a esquerda revolucionária se situa na reorganização e politização da classe trabalhadora. Vale lembrar que o caminho para a criminalização dos movimentos sociais já vem sendo aberto desde o sancionamento da Lei Antiterrorismo ainda no governo petista de Dilma, e agora estes ataques às liberdades democráticas (o que não devemos confundir, por ora, com um “fim” da democracia em si e suas instituições) tendem a se intensificar. O atual presidente eleito já vem defendendo publicamente a criminalização de movimentos sociais como o MST, MTST, centros acadêmicos, dentre outros, ameaçando publicamente todo ativismo no país.

A única saída para a classe trabalhadora, portanto, é na luta das ruas e locais de trabalho e estudo. A luta pela conquista da igualdade racial deve se dar a partir da luta coletiva e organizada pela superação do capitalismo. Retomar o trabalho de politização da classe trabalhadora nos sindicatos e entidades estudantis, que perderam seu caráter combativo a partir do apassivamento das lutas e cooptação dos movimentos sociais durante os 13 anos de governo PT. Voltar às bases, disputar a população desgastada pela crise para um projeto contrário ao da extrema-direita, mostrando uma alternativa combativa e socialista que realmente contemple as necessidades da classe trabalhadora. É na organização em nossos locais de estudo e trabalho, pela construção de uma greve geral, que iremos impedir o retrocesso e que os ataques aos nossos direitos sejam concretizados!

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Combater a extrema-direita nas ruas e nas urnas, sem ilusões com o PT!

17/10/2018

Nós do coletivo Outros Outubros Virão publicizamos através desta nota nossa posição sobre o segundo turno das eleições presidenciais e sobre a atual conjuntura no país.

Estamos em face a um segundo turno das eleições presidenciais onde temos um candidato (Jair Bolsonaro) com grandes chances de ganhar e que apresenta abertamente um discurso neofascista, de apologia à tortura, ao estupro, à homofobia, ao racismo, retirada de direitos dos trabalhadores, apelo à ditadura militar, etc. No entanto, as ideias propagadas por Bolsonaro há algum tempo não são apenas ideias, ganharam força real e isso fica evidente com os mais de 50 casos de agressões, por parte de seus apoiadores, observados antes e depois do primeiro turno das eleições.1

Por entender o perigo que a chegada de Jair Bolsonaro à presidência representa para todos aqueles que se colocam nas mais variadas lutas sociais, defendemos o voto contra a extrema-direita neste segundo turno, sem nutrir qualquer ilusão nas eleições (uma vez que este Estado serve apenas aos capitalistas) e sem deixarmos de lado todas as críticas que possuímos ao PT durante toda a sua trajetória. Nosso voto é para que tenhamos melhores condições de permanecer em luta!

Ao mesmo tempo, como já dissemos, as ideias de Bolsonaro já se enraizaram em determinados setores da sociedade se tornando cada vez mais um movimento, por isso Bolsonaro e seus seguidores não podem ser combatidos apenas através do voto. Muito mais que nas urnas, a luta central é disputar o espaço na sociedade, pois sua derrota final se dará nas ruas!

A situação com a qual nos deparamos hoje é aberrante e beira o irracional, alguns (sobretudo os setores petistas) colocam a culpa do que está acontecendo na “odiosa classe média”, nos setores pequeno-burgueses. Se é verdade que o início da disseminação dessas ideias de extrema-direita começou nesses setores, hoje essas já atingem de forma expressiva até os trabalhadores mais pobres, desempregados, etc.

Para entender essa situação, precisamos compreender: como o partido que nasceu da luta dos trabalhadores perdeu o seu apoio para um protofascista?

O PT surge da luta contra a ditadura e se propõe inicialmente a ser um partido que vai transformar radicalmente o país, reforma agrária, estatização de setores chave da economia, ampliação da democracia e participação popular eram algumas das reivindicações do partido, todas ainda que com disputas possuíam contornos bastante radicais. Ao longo de seu caminho o partido vai suavizando algumas de suas demandas, abrindo mão de outras, amoldando as lutas às esferas institucionais, disputando cargos nas mais variadas esferas do Estado, compactuando com setores que anteriormente se defrontava, aderindo ao fisiologismo do sistema político (Bolsonaro, por exemplo, já fez parte da base aliada do PT quando era do PP), etc.

Em outras palavras, o partido que se erguera contra a ordem (a ditadura) cada vez mais se tornou um partido da ordem, outro igual aos demais, perdeu sua radicalidade e deixou de ser expressão dos anseios dos trabalhadores por mudanças.

Em 2001 com a eleição de Lula as esperanças dos trabalhadores ainda estavam altas, no entanto Lula já havia sinalizado ao mercado em sua “Carta ao povo brasileiro” que iria manter tudo como estava, ao menos no tocante à dominação econômica e política. As medidas de transformação profunda se transformavam em medidas de caráter compensatório pelas desigualdades sociais.

A economia de vento em popa, estimulada sobretudo pelo crescimento chinês e a demanda por commodities, permitiu uma série de políticas compensatórias de redistribuição de renda, um aumento do emprego e uma pequena expansão do mercado interno (se comparado ao de países dominantes). Além disso, o barateamento de itens como eletrodomésticos e eletroeletrônicos, bem como alguns anos de aumento real do salário mínimo serviram para que os trabalhadores estivessem parcialmente satisfeitos, gerando assim uma suposta inclusão social pelo consumo.

Em face à crise de 2008, o PT trouxe para o país os famosos megaeventos, investiu nas obras do PAC (incluindo Minha Casa Minha Vida, obras de infraestrutura viária, elétrica, etc.), ampliou o crédito para famílias e empresas, aumentou o financiamento de universidade privadas, isenções de impostos (IPI zero para carros e eletrodomésticos, isenções para o agronegócio), etc. Medidas como essas permitiram à economia resistir temporariamente aos impactos da crise mundial, abriram diversas novas promessas e possibilitaram que Lula fosse o presidente com maior aprovação no país, elegendo assim sua sucessora Dilma Rouseff.

Ora, com tempo todas estas medidas esbarraram nos limites da frágil economia brasileira (que apesar de ser aclamada na época como a futura quinta maior economia do mundo nunca ultrapassou os 1,2% de participação no mercado mundial). Nossa economia se mostrou dependente de exportações de produtos primários, com um mercado interno reduzido e com os trabalhadores endividados, tecnologicamente atrasada, sujeita à inflação ou a juros altíssimos, com infraestrutura precária, etc.

Os sinais destes limites, se já apareciam com as disputas do fundo público nas greves das universidades federais em 2012, ficam mais evidentes em junho de 2013: os gastos com as grandes obras e eventos todos estavam revertendo apenas em favor das empreiteiras e demais empresas envolvidas, a mobilidade urbana estava um caos, milhares de remoções acontecendo, militarização das favelas, restrição de liberdades democráticas e um massacre ainda maior da juventude negra. A revolta criada pela distância entre o que foi prometido e o que foi entregue fragilizou o governo.

Servir a dois senhores se mostrava impossível, já que para garantir os lucros das grandes empresas e bancos a miséria dos trabalhadores era necessária. A reeleição de Dilma se deu por um triz e em meio a “uma grande polarização”. Dilma se reelegeu negando o discurso neoliberal de Aécio, mas logo em seguida coloca Joaquim Levy como seu Ministro da Fazenda adotando todas as medidas que contrariavam seu programa eleitoral. No ano em que o slogan do governo era “Brasil, Pátria Educadora”, Dilma cortou R$ 9bi das universidades públicas2. Também sancionou a lei 13.134 dificultando o acesso ao seguro desemprego3 (só no ano de 2015 cerca de 1,6 milhões de trabalhadores deixaram de ter acesso ao seguro devido à lei), além de vários outros ataques aos trabalhadores, como a aprovação da lei anti-terrorismo que criminaliza movimentos sociais, a intervenção militar no complexo da maré, etc.

O fim do pacto de conciliação e a resistência ensaiada:

Na medida em que o preço das commodities caía prejudicando as contas públicas, a crise aprofundava, as empresas exigiam mais retirada de direitos para manter seus lucros, mas o governo não conseguia retirar estes direitos na velocidade exigida. A insatisfação de setores médios da sociedade também crescia e, após um longo período de vacilação, a burguesia brasileira aliada com a burguesia imperialista optou finalmente por se apoiar nestes movimentos e romper com os anos de conciliação, colocando no lugar de Dilma um governo puro sangue burguês, sem compromisso algum com qualquer parcela do trabalhadores, vulgo, Michel Temer.

A crise que já estava afetando ferozmente os trabalhadores apenas piorou e, se o lucro das empresas aumentou 17% no ano de 20174, isso se deu claramente pela redução dos direitos trabalhistas e manutenção de isenções às custas de retirada de dinheiro de serviços públicos.

A resistência feita pelo PT e seus satélites à reforma trabalhista, à lei da terceirização e demais ataques foi uma resistência totalmente encenada. Após a greve geral de 28 de abril de 2017 as centrais pelegas (e a CUT está inclusa neste rótulo) desmobilizaram todas as tentativas de futuras greves.

Apesar de toda a retórica em torno do “golpe” o petismo nunca mobilizou de fato sua base social, quer contra o impeachment, quer contra os ataques de Temer, ou mesmo contra a prisão do próprio Lula. Se por um lado gritava golpe, por outro confiava plenamente sua sorte às instituições. Seus gritos nunca foram além de um encenação que visava apontar para as eleições de 2018. Sua estratégia eleitoral tinha em vista uma piora das condições de vida dos trabalhadores para que estes desejassem o partido novamente no Executivo.

A ofensiva burguesa e seus impactos:

Esta resistência frouxa com um foco eleitoral, aliada a uma ofensiva burguesa que impôs o desmantelamento de um sistema de direitos conquistados ao longo de décadas, permitiu que os setores mais reacionários da burguesia avançassem em todos os terrenos.

No plano ideológico utilizou de forma instrumental um antipetismo ancorado num discurso anti-corrupção que ganhou maior vigor com a Operação Lava Jato, um antipetismo que se iguala para o senso comum a um anticomunismo digno de tempos da guerra fria. Difamações sobre a Venezuela são constantes na mídia por exemplo, associações entre esquerda, miséria, ineficiência e corrupção também.

No plano econômico um menu de “reformas” impopulares foi posta na mesa (EC 95, Reforma do Ensino Médio, Reforma Trabalhista, Reforma da Previdência, Lei das Terceirizações, Privatizações, etc.) para serem engolidas a qualquer custo.

No plano político isso significa menos espaço para conciliação, mais repressão para a classe trabalhadora, vindo na forma de maior criminalização e repressão de movimentos sindicais, estudantis e sociais.

O resultado desta ofensiva é o aumento da miséria, do desespero e do caos social!

Apesar de malabarismos numéricos de Temer (e Meirelles) para mostrar que a economia crescia, os números não se refletiam na realidade e mesmo com um tímido crescimento as condições de vida da classe trabalhadora (e até da pequena burguesia, como os caminhoneiros autônomos) pioravam.

Os 77,5 milhões de desempregados e subempregados são um número alarmante do atual caos social em que vivemos. Destes, cerca de 49 milhões são pessoas sem emprego e cerca de 26 milhões estão subempregados5. Esta realidade fica evidente simplesmente ao caminharmos pelas ruas das grandes cidades do país: o número de catadores de lixo, moradores de rua e pessoas pedindo dinheiro aumentou escandalosamente. Além disso o número de crianças sob regime de trabalho infantil também aumentou, chegando a atingir 2,7 milhões de crianças.6

Com o congelamento de gastos públicos já começamos a sentir problemas maiores ainda nos serviços públicos; na saúde por exemplo, temos um aumento nos casos de malária, “chegamos ao final de 2017 com mais de 193.000 casos notificados, um aumento de quase 50% em relação ao ano anterior.”7. Outras doenças como o sarampo8 também voltam a dar as caras ou a ter aumentos significativos.

Num país com falta de perspectivas, sem garantias de um estado de bem-estar social, eis que surge como solução para grande parte da massa de desempregados e subempregados a possibilidade do crime. Com isso as facções que controlam nossas cidades e que muitas vezes isolam áreas da própria intervenção do estado se fortalecem. Ora, num contexto de crise até mesmo o mercado informal das drogas sofre, e com isso o banho de sangue da população negra de nosso país aumenta, ao confronto com a polícia se somam os confrontos entre facções. Estamos diante de uma guerra civil aberta entre o PCC e seus aliados e o Comando Vermelho, Família do Norte e demais aliados.

A crise desses mercados aumenta inclusive o roubo de cargas. A FIRJAN anunciou que em 2017 o roubo de cargas custou R$ 607,1 milhões às empresas no estado do Rio de Janeiro9, cunhando até o termo “custo rio de janeiro”. As estações do Rio de Janeiro como nunca se enchem de produtos roubados oferecidos a preços abaixo de mercado a uma classe trabalhadora paupérrima. O mercado informal aparece como salvação.

É neste cenário de caos social que o impopular governo Temer patinou por meses. Ao não conseguir aprovar a reforma da previdência criou então uma cortina de fumaça chamada intervenção militar no RJ. Na ausência de respaldo social, ou mesmo parlamentar tentou se apoiar na força das armas. A intervenção, no entanto, não melhora a situação (se é que poderia alguma vez fazer isso) e expõe mais ainda a fraqueza do governo e a falta de sentido para onde caminha – fraqueza que se aprofunda com a greve dos caminhoneiros.

O papel de Temer era de ser um mandato “tampão”, sem pretensões de se candidatar em 2018, sua principal tarefa era de aprovar as contrarreformas, ainda que lhe custasse a popularidade. Enquanto isso a burguesia deveria encontrar um outro candidato que pudesse governar com maior tranquilidade e legitimado nas urnas a partir de 2019. Outubro se aproximava e as incertezas continuavam: quem poderia continuar a aplicação do programa da burguesia? Uma coisa, no entanto, já estava certa. Este programa apenas pode ser aplicado através da violência; além disso a própria crise do atual sistema político colocou Bolsonaro no caminho da Burguesia.

Bolsonaro e o crescimento da extrema-direita.

Assim, podemos ver o fortalecimento de Bolsonaro, e da extrema-direita no geral, como fruto de alguns fatores:

  • Uma crise econômica, política e social extremamente grave que o país passa;
  • A falta de uma alternativa radical de esquerda para os trabalhadores;
  • O apassivamento por anos e um retrocesso na organização e consciência dos trabalhadores, promovido pelos governos PT;

Além disto, o crescimento do Bolsonarismo tem relação com:

  • A descrença na institucionalidade e na “política tradicional”, e também aos casos de corrupção e desgaste de seus quadros políticos tradicionais como PSDB e MDB, e também PT;
  • O vácuo deixado pelo abandono das inserções de base da esquerda, resultado da completa implementação da estratégia democrático-popular, durante o processo de burocratização e institucionalização do movimento operário, estudantil e popular.
  • É também resultado – podemos dizer, “relativamente descontrolado” – do papel ideológico de fomento ao antipetismo e o já existente anticomunismo (como tática para criar apoio popular ao impeachment de 2016) empreendido pela burguesia brasileira, que, como nos ensina Florestan Fernandes, possui uma mentalidade mais reacionária e retrógrada em comparação com as burguesias de outros países.

Esta nova direita se coloca de certo modo como “antissistêmica”, ou, “contra tudo e todos”, ainda que não o seja de fato, e seu crescimento só é possível por não haver uma alternativa revolucionária para os trabalhadores. Desse modo, os elementos mais reacionários das classes dominantes e das classes médias vêm se aglomerando em torno da figura do Bolsonaro e nisso arrastando consigo grande parte da classe trabalhadora (não devemos menosprezar o apoio que conquistou junto aos trabalhadores).

Podemos considerar Junho de 2013 um dos momentos importantes desse processo, pois representou um início da corrosão da base social de apoio petista e o primeiro estopim de várias tensões sociais que vinham se acumulando no país. O sistema político vem, desde então, sendo deslegitimado e isso é reforçado pela operação lava-jato e as crescentes tensões sociais, frutos da crise econômica. A piora das condições de vida e o apodrecimento do atual sistema político levam à busca por opções radicais, à esquerda e à direita.

Este fenômeno não é apenas local, mas sim mundial: vemos a eleição de Trump como um candidato anti-establishment, o próprio destaque que recebeu Bernie Sanders e o crescimento de políticos ditos “socialistas” como um todo nos próprios EUA; Na Europa, temos o crescimento da extrema-direita nacionalista com Le Pen na França; o crescimento do Partido Aurora Dourada (fascista) na Grécia, de um lado, do Syriza (reformismo pseudo-radical) e do KKE (Partido Comunista da Grécia) de outro, etc.

Portanto, o que estamos observando no Brasil atualmente, cujo centro está sendo a campanha de Jair Bolsonaro, não é apenas um crescimento da direita tradicional (representada originalmente por partidos como DEM, MDB, PSDB, etc.). Vemos o surgimento de uma direita com contornos neofascistas, fruto da falência e negação do atual sistema político, negação que foi reforçada pela crise econômica e política.

Graças a isso, Bolsonaro, um sujeito medíocre, pôde se tornar peça central na política nacional devido a um amplo movimento de insatisfação que se iniciou com setores da pequena-burguesia, setores abastados dos trabalhadores, profissionais liberais, etc., e que atualmente ganha grandes parcelas da classe trabalhadora. Assim, possui elementos de base de massas, conta com o apoio de igrejas neopentecostais, grupos de milícias urbanas e rurais, ex-militares, etc. Reúne em torno de si elementos de uma ideologia pequeno-burguesa extremamente reacionária, ao mesmo tempo que serve aos bancos, grandes indústrias e agronegócio, utilizando, portanto, essa massa insatisfeita para levar adiante uma política a favor do grande capital.

Os Perigos de um Governo Bolsonaro:

Desde o governo Temer temos visto cada vez mais a presença dos militares na vida política brasileira, algo constante em nossa história mas incomum no pós ditadura. Este Governo fraco, que não conseguiu manter a normalidade e que constantemente recorreu ao exército para garantir a lei e a ordem, pouco a pouco foi transferindo seu poder para estas figuras. Embora não seja a primeira opção da burguesia, o exército vem cada vez mais ganhando espaço na política e em lugares chave para a repressão do proletariado. Temos o chefe do Gabinete de Segurança Institucional, o General Etchegoyen (idealizador da intervenção no Rio de Janeiro), visto como o homem forte de um governo fraco. Além de Etchegoyen, o Ministério da Defesa10, comandado por Joaquim Silva e Luna também assume papel preponderante na organização do sistema de segurança pública e do aparato repressivo do Estado (sendo o primeiro militar a assumir este posto depois da redemocratização).

Os decretos de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), também muito usadas no governo PT, vêm ocorrendo com mais frequência e maior amplitude. Desde o início do governo Temer o exército foi chamado a resolver a crise da greve da PM no ES, a crise dos presídios no RN, a intervenção militar no RJ e mais recentemente o governo se lançou de mais um decreto de GLO em Roraima para conter convulsões sociais geradas pela migração de venezuelanos.

Com cada passo de seus coturnos os militares vêm ganhando espaço na política. Um exemplo de intervenção do exército na política foram os encontros do General Villas Boas com os na época pré-candidatos à presidência da república.11 Até mesmo candidatos ditos de esquerda como Manuela D’Avilla, Fernando Haddad e Ciro Gomes compareceram ao convite do General.

À sua volta, Bolsonaro tem um grupo de militares (da reserva e da ativa) declaradamente golpistas, como é o caso de seu vice, o General Hamilton Mourão, do General Villas Boas, do General Augusto Heleno, etc., todos parte da pior espécie de militares que existem em nosso país, completando as atitudes já conhecidas do próprio Jair Bolsonaro de apologia à ditadura militar e suas práticas.

O Bolsonarismo mescla elementos das ditaduras militares latino-americanas incorporando novos elementos próprios de uma sociedade capitalista já mais desenvolvida, no qual existem diversos elementos de continuidade com o Fascismo. Sabemos que o Fascismo clássico apresenta um inimigo externo a ser atacado: os judeus, os imigrantes, os ciganos, etc. Da mesma forma, movimentos chamados de neofascistas se utilizam ora de bodes expiatórios criando uma ameaça externa ou interna às próprias nações, elemento presente no movimento em torno de Bolsonaro, onde há um inimigo interno à ser combatido, a “ameaça comunista”, tendo como bode expiatório as organizações de esquerda, os sindicatos e setores da classe trabalhadora como negros(as), LGBTs, feministas, mulheres, etc…

Portanto, apesar de não existir um partido de tipo fascista no país atualmente, existem algumas condições propícias para o surgimento de um, como as milícias já referidas, uma pequena burguesia radicalizada, um anticomunismo muito forte, uma crise econômica e cenário de tensões sociais, etc. Ao mesmo tempo, diversos elementos do “Fascismo clássico” não estão presentes, como um discurso estatista, país com inserção central e imperialista (o Brasil sendo um país periférico no mundo), momento de ascensão do movimento operário (muito baqueado no Brasil após as décadas de conciliação de classes).

Uma vitória (provável) de Bolsonaro tende a nos colocar, se não numa ditadura aberta, numa democracia de fachada tutelada por militares, com grupos de extrema-direita agindo livremente contra grupos de esquerda ou mesmo que lutam por direitos de minorias.

Algumas Conclusões!

Apesar do Bolsonarismo ter de fato elementos protofascistas ainda nucleares mas em pleno desenvolvimento dentro de seu amplo movimento, um cuidado que devemos ter é o de diferenciar Bolsonaro e sua base mais radical e esclarecida de seu projeto reacionário; dos trabalhadores iludidos com o sistema político. Por isso devemos demonstrar as contradições do projeto de Bolsonaro e alertar os trabalhadores para o perigo do fascismo, sem igualarmos estes aos fascistas!

Os setores ligados ao PT vêem se utilizando das palavras de ordem antifascistas esvaziando seu conteúdo e canalizando-as apenas para a via eleitoral. Tal postura é incorreta: o Fascismo se espalha pelo tecido social após anos de apassivamento e retrocesso na consciência de classe, em contexto de crise e desespero social, se enraíza em associações de bairro, igrejas, etc. Como tal, só pode ser combatido através da luta de massas nas ruas! É nesse sentido que precisamos inserir a luta nas urnas: como um ponto de apoio para chamar os setores mais avançados a construir no cotidiano o combate ao fascismo. Devemos, assim, investir em atos de rua, colar lambe-lambes, fazer panfletagens e conversar com os trabalhadores.

Precisamos levar a luta contra a extrema-direita às suas últimas consequências, não vacilando, não recuando. É necessário nos prepararmos para os enfrentamentos com essa extrema-direita criando frentes de cunho antifascista e lembrando que esse inimigo se utiliza e se utilizará de métodos violentos. Portanto, o pacifismo e mero eleitoralismo nos desarmam para o combate a estes setores. Precisamos preparar táticas de autodefesa física, individuais, mas sobretudo de massas, em que os atos de rua sejam construídos encarados enquanto ação de enfrentamento militar ao avanço do fascismo. Quanto mais unidos estivermos maior será nossa proteção e daqueles que lutam conosco.

Uma vitória de Haddad neste momento é muito difícil, e mesmo caso esta ocorra existe uma grande chance de ser questionada em termos de legitimidade, abrindo-se assim a possibilidade de algum golpe mais explícito. Caso isso não venha a ocorrer, ainda será um governo em face a um congresso ainda mais conservador do que aquele que derrubou Dilma e num contexto de crise social ainda maior, o que pode levar a um novo impeachment ou a um golpe militar aberto também.

Sendo assim, a única saída para os trabalhadores é a organização coletiva e cotidiana, de forma a realizarem uma grande greve geral que demonstre quem são os seus amigos e seus inimigos, que altere o problema da correlação de forças no país contra as forças de extrema-direita e coloque na ordem do dia a revolução socialista, já que apenas esta poderá resolver concretamente os problemas dos trabalhadores do país!

1Apoiadores de Bolsonaro realizaram pelo menos 50 ataques em todo o país, Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/11/politica/1539282750_803269.html?rel=str_articulo#1539645186327> acesso em: 14 de Outubro de 2018

5Fonte: PNAD IBGE


CONTRA A CRIMINALIZAÇÃO DOS QUE LUTAM! SOLIDARIEDADE AOS ESTUDANTES PROCESSADOS PELA UFPR

19/09/2018

O ano de 2018 está sendo um ano marcado pela perseguição e criminalização de estudantes e trabalhadores que se colocam em luta em todo o país. Há pouco mais de dois meses, 23 manifestantes que participaram de mobilizações contra os aumentos de tarifas do transporte público foram condenados de 5 a 7 anos de prisão em regime fechado. No mês passado, especificamente no Paraná, diversos estudantes que participaram das ocupações de escolas públicas contra a reforma desestruturante do ensino médio foram condenados a pagamentos de multas que beiram os 30 mil reais. Na Universidade Federal do Paraná (UFPR) a realidade é a mesma, e vemos a criminalização e perseguição aos movimentos de luta. Atualmente, estudantes estão sendo processados desde 2015 por participarem de um movimento pela manutenção da qualidade da própria instituição.

A retirada de 12 bilhões de reais do orçamento para a educação pública, ainda no governo da “Pátria Educadora” de Dilma Rousseff (PT), foi um marco importante no ano de 2015. Isso se refletiu em precarização das atividades acadêmicas, atrasos no pagamento de funcionário/as, além  de cortes na assistência estudantil que são sentidos até hoje na UFPR. Naquele momento, estudantes decidiram lutar contra o aumento do preço do Restaurante Universitário (RU) e contra o corte de bolsas. Realizaram assembleias, tal qual professores universitários e técnicos, e decidiram lutar contra a perda de direitos. Tentaram o diálogo com o então reitor, Zaki Akel, que negou qualquer possibilidade de atender às reivindicações da comunidade universitária. Avaliada a falta de vontade política da Reitoria em defender os direitos e a qualidade da educação pública, deflagrou-se greve estudantil. Novamente, o reitor Zaki se negou a negociar, no que os estudantes decidiram pela ocupação do prédio da Reitoria da UFPR até que houvesse a garantia de que não seriam jogados mais direitos na lata do lixo.

Durante o processo da greve e ocupação, uma comissão com 9 representantes dos estudantes dos campi do interior, litoral e capital foi eleita para participar das reuniões de negociação com a Reitoria. O reitor se comprometeu em garantir o cumprimento de nossas pautas, e o movimento foi vitorioso por conquistar o congelamento do valor do RU no ano subsequente. Contudo, todas as outras pautas assinadas pela Reitoria não foram cumpridas e o reitor Zaki iniciou um processo judicial contra os estudantes dessa comissão, culpabilizando-os por “danos” da ocupação decidida pelo movimento estudantil.

A ocupação foi um recurso utilizado após falharem todas as tentativas dos estudantes se fazerem ouvir pela Reitoria da época, que se recusava a recebê-los em reuniões e a sequer dar uma resposta para as pautas, que tratavam de questões como falta de salas de aula, atrasos nas bolsas e falta de comida no RU. Na época, a reitoria alegou que a ocupação causou um prejuízo de 473 mil reais, valor ultrajante que não condiz com quaisquer danos físicos ao prédio ou a atrasos de pagamentos – à época, os próprios ocupantes permitiram aos funcionários da Reitoria a entrada no local para garantir o repasse dos salários aos trabalhadores da Universidade; os responsáveis pela transação financeira foram orientados pela própria Reitoria a não realizarem os pagamentos.

Ocupações, greves e manifestações são instrumentos políticos legítimos para defender e lutar por nossos direitos! A criminalização de qualquer luta social é um afronte àqueles que lutam e um reforço à piora das condições de vida da classe trabalhadora. Não devemos jamais aceitar tais práticas. Repudiamos a tentativa de seguir a criminalização desses estudantes, por isso cobramos que ocorra imediatamente a audiência de conciliação já solicitada com a Advocacia Geral da União (AGU) para a retirada de todas as acusações e do processo e nos posicionamos contra qualquer outra forma de criminalização dos que lutam. É necessário que todas as categorias da Universidade reforcem esse pedido e a defesa das lutas pela qualidade da educação e serviços prestados à comunidade pela UFPR, inclusive a atual Reitoria de Ricardo Marcelo e Graciela Bolzón de Muniz.


Valéria Santos, Renato Freitas e Mariele Franco: vítimas do estado racista e assassino!

14/09/2018

No início da noite do último domingo, Renato Freitas, jovem negro e candidato a deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores no estado do Paraná, foi violentamente repreendido e ferido pela Guarda Municipal no centro de Curitiba. Enquanto fazia panfletagem na Praça do Gaúcho, Renato e as pessoas ali presentes na praça foram surpreendidos pela presença repentina da guarda; Renato foi abordado de forma truculenta pelos guardas municipais e foi baleado com balas de borracha na mão e nas costas. Em seguida foi levado preso e durante duas horas os guardas impediram as visitas de familiares e advogados. Uma situação similar aconteceu em 2016, quando Renato Freitas foi abordado e agredido de forma violenta e detido sob a justificativa de desacato.

Como se não bastasse tamanho absurdo, no dia seguinte (segunda-feira) mais uma situação de racismo, no Rio de Janeiro, a advogada negra Valéria Lúcia foi algemada e retirada de forma violenta pela polícia de uma audiência enquanto defendia uma ré. Enquanto Valéria queria dar procedimento à audiência, a juíza Ethel de Vasconcelos deu por encerrada a sessão e impediu a advogada de exercer os seus direitos e trabalho. Sob uma postura autoritária e racista, a juíza ordenou à polícia que Valéria fosse retirada da sala, uma vez que esta se negava a se retirar enquanto não se desse continuidade a defesa. Em meio ao tumulto, nenhuma das pessoas e colegas presentes ousaram ajudar ou defender a advogada, que foi algemada e arrastada pela polícia enquanto exigia os seus direitos enquanto mulher negra e profissional.

Com essas e outras tantas situações, vemos como o Estado da burguesia, por meio do seu braço armado, escolhe suas  vítimas: basta ser ou parecer da classe trabalhadora, cuja maioria é negra. A justiça brasileira, portanto, caminha de mãos dadas com esse estado racista e genocida que criminaliza aqueles que ousam lutar contra as injustiças e mata os trabalhadores, principalmente os pretos. Exemplos disso são os casos como o de Rafael Braga, catador de latinhas e morador da periferia, que foi preso por portar uma garrafa de Pinho Sol e outra de água sanitária durante as manifestações de 2013. Naquele momento, a polícia alegava que ele usaria tais produtos como formas de produzir armas para os protestos. Assim como no caso de Renato, Rafael Braga foi abordado novamente na rua, enquanto estava sob regime semi-aberto, pela polícia militar. Ao se negar “delatar” situações de tráfico, foi acusado e condenado por tráfico de drogas.

O massacre e repressão sobre a nossa classe, majoritariamente negra, por parte dos patrões e seus governos é uma constante. No Brasil, a taxa de assassinatos e encarceramento da juventude pobre e negra da nossa classe só aumenta. Em estudo publicado pelo IPEA e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que mostra os jovens negros como as principais vítimas de violência no país, isso fica incontestável. Mais de 318 mil jovens foram mortos no Brasil entre 2005 e 2015, dentro os quais os trabalhadores negros  possuem chances 23,5% maiores de serem mortos em relação aos não negros. A intervenção militar no Rio de Janeiro deste ano em específico e todos os super eventos à serviço da riqueza da burguesia (como a Copa das Confederações em 2013, a Copa do Mundo em 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016), mantém a classe trabalhadora do RIO em constantes confrontos e provoca um aumento grotesco de mortos e feridos dentro de comunidades onde reside a classe trabalhadora mais empobrecida e majoritariamente negra. O caso mais emblemático e recente é o de Mariele Franco, mulher negra e lésbica, militante pelo PSOL do Rio de Janeiro, atuava nas comunidades lutando pelos direitos humanos foi assassinada há mais de seis meses. Até agora não foram apontados os culpados. Claramente um assassinato político, a justiça não tem nenhum parecer definido até o momento e o tempo de investigação já supera o de outros casos parecidos.

O Brasil dos capitalistas mata seu futuro a bala. Infelizmente Mariele Franco é apenas um nome dentre muitos outros como Marcus Vinícios e Claudia Ferreira e às centenas e milhares de trabalhadores negros mortos por ano que nem nomes recebem pois são reduzidos a estatísticas. Em Mapa da Violência de 2014 com dados oficiais do Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde, revela-se que cerca de 30 mil jovens de classe trabalhadora entre 15 a 29 anos são assassinados por ano no Brasil, 77% dos quais sãos negros. São mais de 60 pessoas por dia, mais de um a cada 20 minutos.  Diante da conjuntura de crise econômica e agravamento das tensões políticas e sociais, resultando na maior ofensiva de retiradas de direitos e aumento da violência desde a ditadura militar, o estado do patrões criminaliza cada vez mais os movimentos sociais e elimina até mesmo fisicamente de lideranças na luta de classes. Mas como dizia um grande revolucionário negro, Fred Hampton, membro do Partido dos Panteras Negras: “Podem matar um revolucionário, mas nunca podem matar uma revolução!”.

O Coletivo Outros Outubros Virão chama à luta todo trabalhador e trabalhadora que acredita ser inaceitável o ataque dos patrões e governos aos direitos da classe trabalhadora. Seja relacionado à nossa condição de vida, trabalho e estudo como a Reforma Trabalhista, a Terceirização, Reforma da Previdência, BNCC, seja o assalto aos nossos direitos políticos e liberdades democráticas e todas as formas de agressão racista! Toda solidariedade às vítimas da violência racial do estado dos patrões e a polícia, seu braço armado!  Lutar é um direito e uma necessidade!

Contra o genocídio e encarceramento da classe trabalhadora negra!
Contra a criminalização dos movimentos sociais!
Pelo direito à vida e à luta!
Nenhum direito a menos!
Firmes!


NOTA DE APOIO CRÍTICO À CHAPA 3 “REVIRAVOLTA, UM CHAMADO À REBELIÃO”, CONCORRENTE AO PROCESSO ELEITORAL DO DCE-UFPR 2018/2019

28/08/2018

Nós, do coletivo Outros Outubros Virão, viemos através desta nota manifestar nosso apoio crítico à chapa 3 que concorre nas eleições 2018/2019 à direção executiva do Diretório Central Estudantil da UFPR: Reviravolta, um chamado à rebelião. Entendemos que o processo eleitoral do DCE é um momento de efervescência política dentro da universidade, sobretudo em um ano eleitoral da democracia burguesa, em que a política passa a ocupar maior relevância nos debates cotidianos – embora ela seja pano de fundo das relações sociais a todo momento. Não poderia ser diferente, dado que essa entidade do movimento estudantil pode cumprir um papel importantíssimo na organização dos estudantes em prol da construção da resistência aos ataques que a educação vem sofrendo, bem como na conquista de novos direitos. Afirmamos que essa entidade pode cumprir esse papel, mas nem sempre o faz, porque depende dos grupos políticos que ocupam esse espaço e da prática desenvolvida. Por isso, o DCE pode se converter em instrumento de retrocesso para a organização estudantil, descolado das bases da universidade, do movimento concreto e das necessidades reais dos estudantes. Nesse sentido, em uma eleição em que concorrem três chapas compostas por grupos políticos com linhas políticas diferentes, é de fundamental importância que realizemos uma análise sobre a situação, para assim construirmos esse processo da melhor maneira possível.

As chapas que fazem parte do processo eleitoral deste ano são: chapa 1 – Envolvimento: da unidade à esperança, formada por militantes do PT e PCdoB, além de independentes; chapa 2 – Enfrentar sem medo, formada por militantes do RUA, Juventude Comunista Avançando, e Resistência, junto com independentes ; e chapa 3 – Reviravolta, um chamado à rebelião, composta por militantes do PSTU, do coletivo Reviravolta e independentes. As chapas 1 e 2 concorrem à executiva e também aos conselhos superiores, enquanto a chapa 3 disputa apenas a direção executiva.

POR QUE NÃO COMPUSEMOS O PROCESSO ELEITORAL

É importante ressaltar que, enquanto coletivo, despendemos diversos esforços na tentativa de construção de uma chapa de unidade da esquerda para a disputa do processo. Para nós, o movimento estudantil da UFPR vem retrocedendo em diversos aspectos, como na capacidade de se mobilizar na universidade, de fazer frente aos ataques que sofremos, de apontar uma alternativa revolucionária para a crise política e econômica que ocorre a nível mundial hoje, bem como na contraposição aos projetos de conciliação de classes, tocados pelos pelegos do movimento estudantil ligados ao PT, PCdoB, e demais satélites. Essa contraposição também deve se dar no seio do movimento, ao passo que diversas organizações de esquerda pautam a refundação do mesmo projeto político que transformou essas organizações dos trabalhadores em organizações de gerenciamento dos interesses do capital, o chamado Projeto Democrático e Popular.

Assim, parece-nos uma irresponsabilidade tática a inexistência de tal chapa de unidade, com alguns consensos mínimos. É um problema tático pois fragmenta ainda mais o que já está transformado em pó, mina a capacidade de intervenção da esquerda na UFPR, que atualmente já é pouca, e dificulta a contraposição aos pelegos que ocuparam no último ano a direção do DCE. Não só as organizações que estão compondo chapas para o processo, mas também as organizações que decidiram por diversos outros motivos não construir chapas devem ser responsabilizadas por tal situação.

Entretanto, apesar de não compormos formalmente nenhuma chapa, não poderíamos nos ausentar desse momento importante para o movimento estudantil. Sendo assim, posicionamo-nos a favor da chapa que melhor responde às necessidades estudantis. Isso não significa que não temos críticas ao desenrolar do processo, como tentaremos expor a seguir.

QUAL A POLÍTICA DAS CHAPAS?

A chapa 1 é composta pelos mesmos grupos políticos, ligados ao PT e satélites, que formavam a gestão de 2018 do DCE da UFPR. Portanto, é a chapa de continuidade da gestão “O Rolê é Nosso”. É importante lembrar que em 2018 essa gestão não contribuiu para a organização da mobilização estudantil, teve uma política rebaixada em relação aos ataques que sofremos, fez conchavo atrás de conchavo com a reitoria da universidade. Vestiram uma máscara, em que muito se via a defesa da democracia burguesa e daqueles que a ocupam. Contudo, os espaços de discussão do movimento estudantil, os mais necessários para a construção da resistência nesses tempos de desmonte da educação, inexistiram. Como exemplo, não tivemos sequer uma assembleia geral estudantil da UFPR neste primeiro semestre de 2018 chamada pela gestão, ao passo que vários Conselhos de Entidades de Base foram realizados, com discussões burocráticas, descoladas das necessidades estudantis, com pouquíssimo debate político e servindo como argumento para a não realização de assembleias. Isso por si só mostra que a política da gestão passada e dessa chapa não está a favor dos reais interesses dos estudantes, mas sim na manutenção do estado de coisas, na continuidade das estruturas sociais, talvez um pouco menos “feias”, mais perfumadas, mas, em sua essência, as mesmas.

As propostas da chapa 1 também expressam a falta de centralidade na mobilização dos estudantes e na mudança social. Muito se fala sobre a conquista de direitos, e pouco se fala em lutar para garanti-los. Em tempos de retirada brutal de direitos, de piora das condições de vida, depositar as fichas para a garantia dos mesmos na estrutura do Estado burguês ou nas instâncias da universidade é um erro e um desserviço aos estudantes. A única saída para impedir a precarização da vida é através da luta organizada, coletiva e dirigida para a transformação de toda a sociedade, pois a universidade não é uma bolha à parte dos conflitos gerais da sociedade. Apoiar essa chapa é apoiar o retrocesso político e organizativo do movimento estudantil, é apoiar a entrega de nossos direitos de mão beijada para o capital e os governos de plantão, que buscam negociá-los como mercadorias.

A chapa 2, formada por organizações como a JCA, Resistência e RUA, aborda alguns tópicos importantes em sua carta programa,  como a necessidade de resistência contra os ataques que sofremos, o combate à LGBTfobia, ao machismo e ao racismo. Entretanto, observamos que a chapa não traz nenhuma crítica aos governos petistas, o que entendemos ser problemático, já que o PT é a expressão máxima da conciliação de classes no Brasil, com programas como o REUNI – que foi responsável por aumentar a estrutura das universidades, e abranger um número maior de alunos, ao mesmo tempo em que não ajustava os investimentos feitos na educação, ou seja, tinha mais gente na universidade, mas sem o devido aumento em investimentos – ou o FIES, programa de financiamento estudantil em universidades particulares, investindo, portanto, dinheiro na iniciativa privada ao invés do ensino público, entre outros. Se lembrarmos das últimas greves que vivenciamos nas universidades federais nos últimos anos, parte delas dizia respeito ao enfrentamento de medidas dos governos petistas, como a greve de 2012, a luta contra a EBSERH em 2014, e greve e ocupação de 2015.

Outra discordância que temos com a chapa é a questão do fomento das atividades esportivas por meio das atléticas. Essas organizações estudantis foram criadas em meio a ditadura militar, numa tentativa dos governos de desmobilizar o movimento estudantil promovendo grupos de prática de esporte como meio de socialização dos estudantes. Elas foram criadas, portanto, no sentido de enfraquecer a luta dentro das universidades, e entendemos que elas cumprem esse papel até hoje. É importante dizer, entretanto, que não discordamos da prática de esportes coletivos, e de como ela é, em certos momentos históricos, política. Porém, é na figura da Atlética que os estudantes tem se aglutinado atualmente, e não em espaços políticos como as assembleias, os CA’s, coletivos de curso e etc. É para o movimento estudantil que temos que girar nossas forças, exigindo da universidade as devidas condições para o desenvolvimento de atividades esportivas por aqueles que desejarem.

A chapa 3 pauta um programa de resistência aos ataques que viemos sofrendo nessa conjuntura, da necessidade de organizar os estudantes em conjunto com os trabalhadores para realizarmos o necessário enfrentamento, e assim garantir a manutenção de nossos direitos, o que se expressa em diversas pautas: a luta contra a BNCC, contra os cortes na CAPES, por melhores condições de moradia estudantil, por melhoria da segurança na universidade, por mais assistência estudantil, e que garanta a permanência dos estudantes na UFPR, pelo combate às opressões, contra as reformas trabalhista, da previdência, etc. É uma chapa que defende uma perspectiva revolucionária de análise da sociedade atual – sociedade de classes, onde impera o capital – bem como uma ação prática balizada por essa análise, que aponta para uma ruptura com esse modo de organização social. É nosso papel reforçar tal política na universidade. Entretanto, apesar desses acordos, mantemos algumas divergências com o programa da chapa, no que diz respeito à construção da ANEL e da CSP-CONLUTAS, enquanto entidades nacionais de organização estudantil e dos trabalhadores, respectivamente. Reconhecemos a necessidade de instrumentos amplos, de caráter geral, que contribuam com a reorganização do movimento estudantil a nível nacional, porém acreditamos que ambas entidades devam surgir a partir da construção histórica do conjunto da classe trabalhadora, a partir de suas possibilidades. Não é possível hoje a erigição de tais entidades, atreladas às bases e cumprindo seu papel proposto, dada a fragmentação que vivemos enquanto classe (que ainda se encontra sob as amarras de um projeto hegemônico conciliador), a falta de uma estratégia política revolucionária, e a conjuntura, que cada vez mais dificulta as possibilidades de militância, de vida e existência. A realidade do movimento estudantil é de retrocesso, pouca organicidade e dificuldade de construção de processos de luta amplos. Na UFPR, mais especificamente, muitos centros acadêmicos, coletivos de oposição e locais de estudo se perderam recentemente para a social-democracia ou para a direita. Na ordem do dia está a necessidade de retomada desses instrumentos e do acúmulo de forças nas bases para a esquerda.

Apesar da multiplicidade de chapas, com políticas distintas, do período de efervescência nacional, temos visto pouca ou nenhuma mobilização concreta nas bases estudantis em relação à eleição do DCE. Esse processo deve servir para o avanço da consciência dos estudantes em relação às pioras de suas condições de vida, da retirada de seus direitos, e, consequentemente, para sua ação organizada e coletiva. Assim, o trabalho de base se faz essencial para alcançar o conjunto estudantil, envolver a universidade no processo. É necessário avançar na compreensão enquanto esquerda do que esse momento significa, do que é necessário retomar e do que é necessário abandonar, e assim despontarmos na luta, mesmo num momento tão difícil.

Portanto, chamamos todos e todas as estudantes a participarem do processo eleitoral do DCE, e a votar na chapa 3 – Reviravolta, um chamado à rebelião, para direção executiva, nos dias 29 e 30 de agosto, mas além disso, chamamos todos e todas as estudantes a se somarem à luta por uma universidade pública, gratuita e de qualidade, que nenhum direito nos seja retirado, e que possamos construir, ao lado da classe trabalhadora, um novo mundo.


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