Carta de despedida do MEEF

Ao Movimento Estudantil de Educação Física, especialmente àquelas e àqueles que ficam…

 É com um misto de orgulho e tristeza, de esperança e decepção, que deixo as fileiras do movimento estudantil de educação física. Não saio porque desisti, nem porque acho que consegui cumprir todas as minhas tarefas. Mas porque não estou mais na base social desse movimento, algo que tem data de validade, e geralmente bem curta. E a minha venceu esse ano.

 Aos que ficam, e aos que ainda estão na dúvida se compram esse briga ou não, digo que não me arrependo de ter me jogado aqui. Foi aqui que aprendi a falar duro, e também comecei a amansar o tom da conversa (isso também está em processo…hehehe) . Foi aqui que construí as amizades mais profundas e os laços mais firmes da minha caminhada. Compartilhar o futuro da humanidade é algo bem mais intenso que qualquer outro. Foi aqui que aprendi que devemos assumir o controle, caso desejemos que as coisas mudem. E que o esforço para mudar as coisas nos modifica profundamente. Foi aqui que pude conhecer as diferentes realidades desse país, que sofrem muitas vezes os mesmos problemas, mas que também guardam qualidades específicas sobre eles. Desde a superficial riqueza cultural das diferentes regiões até a desigualdade histórica que distancia as diferentes regiões, e que vão muito além do universo da educação física. 

 Foi aqui, em meados de 2005, que comecei a extrapolar a luta por necessidades e vontades individuais e me responsabilizar pelos problemas alheios, que depois descobri não serem alheios merda nenhuma, mas nosso. O envolvimento com o MEEF na UFPR se deu já no meu primeiro ano, coincidentemente o primeiro ano em que a divisão do curso em Licenciatura e Bacharelado se tornava oficial desde a entrada no vestibular. O envolvimento com o MEEF em âmbito nacional se deu no II CONEEF que aconteceu em Curitiba, em 2006, numa boa e velha discussão de estatuto da executiva. Pensem o desespero. Os encontros todos que se sucederam foram cruciais para amarrar um envolvimento e transformá-lo em comprometimento. Tanto dos enfrentamentos locais por aqui, quanto do suporte ao que acontecia no resto do país, via ExNEEF.

 Na UFPR, a disputa local pelo Centro Acadêmico, assim como os enfrentamentos políticos todos, foram sempre difíceis e turbulentos. A reação dos professores e dos setores mais reacionários dos estudantes sempre se fez presente. Mais do que um empecilho, um sintoma de como o MEEF como um todo sempre teve impacto por aqui, desde suas origens, na década de 80. Felizmente, desde as origens do MEEF, sempre existiram lutadores por aqui dispostos a enfrentar as forças conservadoras, reacionárias e também os oportunismos todos de quem usa a política como forma de promoção pessoal. E felizmente eu pude cruzar com vários desses lutadores, que me ensinaram muito sobre esse mundo, e me colocaram em contato com esse movimento, com o qual tentei contribuir nos últimos anos.

 O avançar da consciência, das teorizações, do envolvimento prático, e do enfrentamento nos espaços do movimento me convenceram de que uma das tarefas centrais que os militantes do movimento estudantil devem cumprir é se apropriar da teoria revolucionária, qual seja, o método marxista, o materialismo histórico-dialé tico. Por dois motivos. Primeiro porque ainda é a teoria que melhor descreve os mecanismos de funcionamento da realidade, que se propõe a captar o movimento das coisas, sua história, suas tendências, seus determinantes concretos. Por isso, é a teoria que mais deve interessar àqueles que se propõe a modificar a realidade concreta. Em segundo lugar, porque é provavelmente nessa fase da vida que teremos mais condições concretas de nos debruçar sobre as ferramentas teóricas, e gastar muitas horas de nossas semanas estudando. Uma apropriação sólida da teoria marxista feita agora pode ser determinante não só no movimento estudantil em si, como uma lente que dá as melhores respostas imediatas, mas facilitar um processo de militância futura (para aqueles que não desistirem), em que os estudos muito provavelmente serão mais difíceis por uma série de motivos. Devemos sim continuar avançando depois, mas certamente teremos dificuldades por conta da jornada de trabalho, que ocupará quase todo nosso tempo.

 Muito me entristece perceber que vários agrupamentos políticos ou não andam muito preocupados com a construção dessas lentes teóricas (ou de método), ou lançam mão dela apenas quando lhes é conveniente. E nos dois últimos anos, no qual estive envolvido com mais responsabilidades nesse movimento, sucederam-se vários exemplos muito interessantes e ilustrativos dessa falta de método, ou quem sabe adoção de outros métodos que não aquele que coloca a realidade material e concreta como seu determinante central e seu critério de verdade. Em todos eles, a realidade deixou de ser apreendida a partir de critérios objetivos/concretos para ser vista a partir de um discurso produzido sobre a realidade, ou, a partir das idéias: o coletivo de oposição ao CA da UFPR, que resiste ao ataque dos professores e dos seus gerentes-estudantes ser transformado em grupo de ações burocráticas e pelegas; os Coordenadores da ExNEEF e demais militantes sem computador em casa ou sem financiamento de seus CAs e Universidades serem transformados em militantes descomprometidos com o movimento, e as vezes até em seres inexistentes; militantes que se comunicam por fora dos espaços públicos e das listas públicas para garantir demandas e mesmo sanar dúvidas serem transformados em burocratas e aparelhistas; e, por último, a recente desorganização de uma Comissão Organizadora ser transformada em boicote da Reitoria ao encontro, produzindo, num plano discursivo, a pauta que esse ou aquele grupo político acham central para o movimento. 

 A reestruturação que a esquerda como um todo precisa dar conta não é só uma questão prático-organizativa , mas passa também por uma modificação (ou uma consolidação) na forma como apreendemos, no pensamento, a realidade concreta. Quais são as pautas mais candentes do momento? Quem são os grupos e os militantes mais aptos a dirigir o movimento? Como organizar os militantes dispostos a lutar por nossas pautas? Utilizar-se de verdades construídas a partir do discurso desse e daquele militante para dar essas respostas não me parece um caminho seguro, e os rumos que nosso movimento está tomando podem ser um sintoma disso. Onde estão os exemplos concretos em nossas argumentações? Onde estão os fatos que sustentam nossas defesas? Onde se esconde a realidade concreta na hora que defendemos essa ou aquela pauta ou atacamos esse ou aquele militante? Estamos efetivamente reconstruindo as formas de se fazer militância rumo à outra forma de se viver em sociedade ou estamos repetindo os vícios petistas de promover personalidades e direções-estrela, e disputando nossas pautas intransigentemente ignorando os outros lutadores que não são exatamente iguais a nós, mesmo estando no mesmo horizonte estratégico?

 Acho que essas e outras perguntas precisam ser respondidas por quem fica, no sentido de fazermos avançar um setor do movimento estudantil que em muitos momentos tem se mostrado vanguarda no que diz respeito ao rompimento com a forma petista da disputa política nas universidades, mas que tem debilidades claras, tanto teóricas quanto organizativas. As disputas fratricidas, as acusações pessoais, a falta de estudo, o personalismo, e uma série de outras práticas precisam ser mandadas para o mesmo lugar que mandamos a União Nacional de Estudantes em 2008: para fora do nosso movimento. E só conseguirá fazer isso o movimento que estiver disposto a olhar com mais profundidade para a realidade e reconhecer os erros da forma que passou e hoje está na presidência. Não adianta jogarmos a UNE e o PT no lixo, se continuarmos reproduzindo em nossos espaços as práticas deles.

 Apesar das críticas, não tenho dúvidas de que o Movimento Estudantil de Educação Física guarda hoje, sem dúvida, alguns germens do que podem vir a ser as novas formas de organizar a luta da esquerda no Brasil. O rompimento com a UNE, a crítica ao que o PT (que já foi hegemônico por aqui…) vem fazendo, os embates com os setores reacionários e reformistas nas escolas onde nos organizamos, a formulação toda sobre formação e regulamentação foram passos importantes dados nesses últimos anos e que representam um avanço real do que esse movimento é capaz de fazer.

 Enfim, acho que tentei nesse anos contribuir com essa (des)construçã o e não tenho dúvidas de que vivi coisas essenciais nesse movimento, e militei ao lado de gente comprometida, e que espero que não desista tão cedo de mudar essa merda de sociedade que temos hoje. Não tenho dúvidas de que essa foi a principal escola por onde já passei em toda a minha vida. E indico ela pra todo mundo. Mesmo assim, saio desse movimento com mais dúvidas com que entrei. Não por que fomos vacilantes demais, ou ignorantes demais, mas realmente por que conseguimos fazer avançar muita coisa tanto em nossa prática quanto em nossa consciência, o que nos abriu cada vez mais para o resto do mundo, e para o resto dos problemas, e nos colocou (eu e vários outros velhos que estão saindo) em contato crescente com a esquerda brasileira em crise, e nos mostrou o tamanho do problema que temos nas mãos caso realmente queiramos mudar algo.

 Obrigado a todos os que contribuíram com esse movimento nos últimos anos, e consequentemente comigo, e muito força aos que levam nos ombros o fardo que deixo (e deixamos) hoje a vocês do Movimento Estudantil de Educação Física.

 Força na luta companheir@s, e espero reencontrá-los em outras lutas mais a frente.

 Abraços Revolucionários  

Gabriel Conte – Membro da EXNEEF gestão 2009/2010

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