MARCHA A BRASÍLIA: MARCHA AO PASSADO

“Com isso pensam em mostrar ao governo que nós estamos insatisfeitos.
Como se o governo não soubesse.”
(Luta Sindical, Jornal da Oposição Sindical Metalúrgica São Paulo. Fevereiro de 1983)

Para entendermos melhor as práticas e apontamentos militantes de nossos dias, faz-se necessário um resgate histórico que coloque em evidência a natureza e objetivos de nossa luta e instrumentos.

Fecha-se um ciclo
No processo de redemocratização do Brasil, inicia-se um ciclo na esquerda: o ciclo PT. Nele, tem-se o projeto democrático – popular como estratégia na organização dos trabalhadores.
A via “democrática” tem como meio a utilização dos aparatos legais da classe dominante (aprovação de leis e entrada no Estado). Avaliava-se importante participar destes locais para intervir nas decisões e denunciá-las, caso fosse necessário.
A via “popular” se caracterizava pela íntima relação dos trabalhadores com os setores populares para massificar a cobrança das reformas exigidas: tem-se aí a luta pela cidadania, por sujeitos capazes de exigir seus direitos, mas cumprindo seus deveres, como o de utilizarem as vias legais de intervenção.
No decorrer do processo, foi-se abandonando os instrumentos de luta historicamente construídos pelos trabalhadores (greves, assembleias, ocupações, organizações por local de trabalho, estudo e moradia) para legitimar os da burguesia, dito vias “democráticas” (eleições de parlamentares, abaixo-assinados, projetos de lei).
Na prática, acabou-se por criticar o governo vigente ao invés do Estado (aparato burguês de legitimação e implementação das necessidades desta classe), bem como inviabilizar a continuidade dos militantes em suas bases. Isso por necessitarem gastar a maior parte da energia na manutenção dos parlamentares eleitos, deslocando as lutas das bases para os parlamentos, sendo estas cada vez mais distantes das reais demandas da classe trabalhadora.
Tal cenário se mostrou ineficaz para uma real transformação radical desta sociedade. Deste modo, cabe a nós, militantes deste tempo, compreender os vícios da história, superá-los rumo a um novo construir – enraizado efetivamente na base.

Onde está o poder?
A potencialidade das lutas brasileiras, que efervescia nos anos 80, acabou por diluir-se nos labirintos do Projeto Democrático Popular. Em consequência disto, houve a naturalização de algumas respostas às perguntas militantes.
Uma destas perguntas questiona onde está o poder na sociedade em que vivemos. As práticas desse ciclo levaram os trabalhadores, cada vez mais, a acreditarem que o poder está com as autoridades, com o Congresso, com a Presidência, enfim, concentrado nos palácios e ministérios de Brasília. Mas, fazendo uma análise profunda da realidade, notamos que o poder não está colocado na capital do país. Ele se encontra nos locais que produzem todas as condições para a vida humana: fábricas, portos, plantações, hospitais, universidades, etc.
Fatos históricos demonstram que mobilizações nestes locais são muito mais eficientes do que ações onde o ultrapassado ciclo de lutas considerava estar o poder. Como exemplo as greves que contribuem muito mais ao processo de luta do que eleições ou pressões em parlamentares.
Por isto, nesse novo momento que se inicia, é tarefa urgente recolocar o foco das lutas nos locais onde elas terão mais impacto: nos locais em que se produz e reproduz a vida. É necessário reconstruir as bases, conectá-las com a luta real e eficiente. É necessário resgatar os trabalhadores e estudantes da desilusão e do marasmo provocados por um ciclo de lutas derrotado.
É necessário, portanto, superar as velhas práticas.

A Marcha a Brasília.
No dia 24 de agosto de 2011 foi organizada por diversos grupos políticos uma marcha a Brasília. Esta contou com estudantes e trabalhadores de todo o Brasil, chegando a 20.000 pessoas, tendo como propostas reivindicar, entre outras coisas, 10 % do PIB para a educação.
Por estarmos em um momento histórico onde não há inserção real na base do movimento, e por Brasília não se configurar como o centro do real poder em nossa sociedade, é de se esperar que não serão atendidas as reivindicações por meio de uma marcha. Mas não é nem essa a questão a ser colocada. Diversos grupos organizadores da marcha compartilham da análise de que as pautas não serão mesmo conquistadas. Mesmo assim colocam a importância de sua realização para contribuir na disputa de consciência e articulação nacional do movimento. Consideremos estas duas partes:

1. Disputa de Consciência:
É colocado como disputa de consciência o processo de convencimento sobre a pauta e a necessidade de sua defesa, bem como compreendê-la como parte de um processo mais amplo. Neste argumento, coloca-se a marcha como um instrumento pedagógico em tal processo.
Mas é realmente pedagógico levar a base do movimento para uma marcha praticamente ignorada pelo governo e pela mídia? É pedagógico mostrar aos estudantes e trabalhadores que em Brasília -segundo todas as pessoas que moram e trabalham perto dos ministérios e palácios do governo – marchas, protestos e passeatas acontecem quase todos os dias e nada muda? É pedagógico retirar os estudantes de suas Universidades nos dias mais preciosos do movimento local, enfraquecendo as lutas travadas nos espaço mais importante de se construir agora? É pedagógico marcar reuniões das autoridades de Brasília com as direções do movimento e nada ser resolvido? É pedagógico, enfim, ensinar ao movimento práticas ultrapassadas de ação, que não surtem efeito nenhum, desestimulando assim a luta?

2. Articulação Nacional:
Talvez o argumento mais colocado a favor da marcha a Brasília tenha sido o da importância da articulação nacional das lutas. A relevância da nacionalização das correntes políticas deve ser reconhecida – mesmo porque, como todos sabemos, os problemas locais são bastante semelhantes na maioria dos lugares e têm uma determinação social comum. Apesar disto, a articulação nacional efetiva não é uma possibilidade atual, uma vez que para isso é necessário construir e caminhar com uma base real.
O que se enxerga hoje é uma “articulação entre direções”. A possibilidade de uma articulação real virá a partir da massificação das lutas nas bases e no momento em que as condições objetivas e subjetivas estiverem maduras,  não no momento atual, por voluntarismo.
Desta forma, na lista de prioridades atuais, coloca-se a necessidade da construção local antes da pretensa articulação nacional. A importância da nacionalização das lutas não é negada, mas sim a sua execução de tal forma que não gere prejuízos ou conflitos com a tarefa urgente: o trabalho de base.
Assim, pode-se analisar a inversão da ordem de importância ocorrida na marcha a Brasília. Durante os dias de maior efervescência das mobilizações locais, militantes foram desviados para outro foco de atenção: o “protestódromo” no Planalto Central.
Por último, um ponto que merece alguma reflexão, e que talvez coloque um pouco mais objetivamente a questão, são as condições materiais necessárias à realização da marcha. Fazendo uma estimativa, facilmente se percebe o gasto elevado que esta marcha teve: enviar 20 000 pessoas divididas em ônibus de todo o Brasil até Brasília custa alguns milhões de reais, dinheiro este que poderia ser usado de maneira muito mais eficiente em outras formas de luta.
Considerar o poder centrado em Brasília, fazer pressões em parlamentares, criticar o governo e não o Estado, desviar recursos e pessoas dos locais de produção… são todas essas práticas do ciclo que temos como tarefa urgente superar, resquícios do velho que não foi ainda enterrado. São repetições de erros do passado. É preciso colocar urgentemente na ordem do dia as tarefas necessárias, as tarefas de agora.  É preciso fazer surgir o novo.

Conclusão
Pela análise feita acima, concluímos que ações como a marcha a Brasília, tal qual foi realizada, não se configura como a tática mais acertada neste momento das lutas. Por isso, decidimos mandar apenas dois militantes, número suficiente para participar do evento sem esvaziar a atuação local e, ao mesmo tempo, sem negar as atividades promovidas pelo campo da esquerda nacional.

Coletivo Outros Outubros Virão
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One Response to MARCHA A BRASÍLIA: MARCHA AO PASSADO

  1. caetesufal disse:

    Bom texto camaradas!

    Saudações!

    Jônatas, grupo além do mito… UFAL.

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