Nota do Coletivo Outros Outubros Virão sobre o processo eleitorial do DCE UFPR – 2012/2013

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Nota do Coletivo Outros Outubros Virão sobre o processo eleitorial do DCE UFPR – 2012/2013

   Nos aproximamos neste momento do período de campanhas para as eleições do Diretório Central dos Estudantes (DCE) e, com isso, cabe aos estudantes, e aos coletivos que militam na Universidade fazerem suas análises sobre em que direção que devemos caminhar. Vemos na UFPR um histórico um tanto interessante em relação às gestões que ocuparam o DCE durante as movimentações grevistas dos últimos dois anos: exemplos de como o instrumento do DCE pode ser utilizado a favor ou contra os estudantes.

   Em 2011, nós do coletivo Outros Outubros Virão compusemos a gestão “Mais Vale O Que Será” em aliança com o então coletivo Barricadas. Durante o ano percebemos os limites do instrumento em períodos não grevistas ou sem mobilizações: inúmeras tarefas burocráticas compulsórias como a participação dos conselhos universitários, a organização dos congressos, convocações de CEBs (Conselho de Entidade de Base) com uma regularidade pré-determinada que muitas vezes independe da necessidade real da convocação deste espaço. Além das tarefas administrativas da universidade que nos são impostas, a participação nos conselhos eleitorais para reitoria – tarefas que sugam a maior parte do tempo, energia e disposição das gestões entravando o trabalho de base e gerando, assim, a falta de identificação e referência dos estudantes com a própria entidade. Contudo, avaliamos também como aquela gestão potencializou a luta dos estudantes grevistas, ao impulsionar o início do movimento grevista – convocando as primeiras assembleias, divulgando as notícias através de jornais e do blog, organizando os estudantes pela luta nas bases – e depois ao se incorporar ao comando de greve, de maneira que se diluiu em sua organização. É importante percebermos que na UFPR temos um histórico forte de lutas, que possibilita em alguns momentos a construção de um movimento sem as entidades, entendemos, porém, que o DCE pode ser mais valioso, no sentido de organizar estudantes e abrir contatos, principalmente em Universidades mais novas que não possuem tal histórico.

   Já neste ano, presenciamos um DCE composto por estudantes e coletivos que se propunham a fazer pelos estudantes e não com eles, barrando e se opondo à movimentação direta e real destes, organizando movimentações via representação em paralelo às assembleias, pautando a burocracia acima da luta cotidiana, realizando determinadas escolhas politicas como forma de atrasar ao máximo  o processo de mobilização dos estudantes por suas pautas. A esquerda se viu obrigada pelas condições colocadas no último período de lutas da Educação a utilizar  formas de mobilização dos estudantes por fora da entidade representativa, e conseguiu, de fato, tomar frente do processo e deslegitimar a forma pelega de militância da atual gestão.

   Frente a isso, fazemos a análise de que a forma de fazer Movimento Estudantil com os estudantes, através de assembleias, de mobilizações reais, debates e discussões aprofundadas e a relação com as demais categorias da UFPR deve ser utilizada ao máximo nesse momento. A greve nos trouxe importantíssimos acúmulos organizativos e políticos, que necessitam ser explorados ainda mais! As pautas econômicas que conquistamos (aumento no valor das bolsas, wireless em toda a universidade, aumento do número de intercampi, etc) precisam ser efetivadas através da mobilização e pressão dos estudantes, e precisamos ainda publicizar para os estudantes que não participaram do processo como construímos a greve e os avanços que tivemos. A maneira como isso deve ser feito é a partir dos cursos, do dia-a-dia dos estudantes – de um trabalho de base real, como prioridade na militância da esquerda. A necessidade deste momento é legitimar a greve a partir dos locais de estudo e mostrar que as tarefas do ME estão longe de acabar!

   Para isso, podemos ou não estar nos Centros Acadêmicos ou demais entidades de base. Atualmente, compomos diversos centros acadêmicos por entender que estes espaços muitas vezes são referência para os estudantes dos cursos e podem se mostrar próximos à materialidade de cada local, a depender da forma e do conteúdo políticos tocados pelas gestões, bem como do histórico dos cursos. Não compreendemos todas as entidades do Movimento Estudantil como iguais: com o mesmo grau de importância, enraizamento na base e identificação dos estudantes. Estamos nos CAs e DAs em que consideramos possível e necessário utilizar esse espaço para potencializar as lutas de determinados estudantes da Universidade. Achamos um erro, contudo, transpor essa análise mecanicamente para uma entidade de representação geral dos estudantes, sem entender suas especificidades e diferenças.

   Compreendemos que somos socialmente formados, ou seja, a partir de certas práticas sociais que são determinadas pela forma como produzimos e reproduzimos nossa vida desenvolvemos certas concepções: aprendemos a sempre delegar ao outro nosso poder e força, crescemos ouvindo que o máximo que podemos fazer para mudar qualquer coisa é votar no melhor representante, ou ainda, no menos pior. Entendendo os limites desta politica nos propomos a superar a forma de fazer pelos estudantes, nos propomos a fazer com eles, cotidianamente. E para isso avaliamos que, nesse momento, não devemos disputar o DCE.

   Por todo o exposto, avaliamos que este não é o momento de compormos uma chapa em unidade com a esquerda para disputar o DCE. Apesar de nos identificarmos com o conteúdo programático da chapa dos camaradas da esquerda e de termos clarezas que eles não pouparão esforços para lutar contra as politicas precarizantes da educação superior, não apoiaremos tal chapa. Avaliamos que ambas as chapas tocarão da mesma forma o DCE – enclausurada na representatividade e burocracia, distantes da base e que, ainda, podem cair na disputa do DCE como um fim em si mesmo e não como um meio para estar mais próximo dos estudantes. Por isso, devemos nos utilizar – juntamente com o Coletivo Quebrando Muros –  dos espaços de debate abertos pela campanha para propormos uma outra forma de se mobilizar: através da organização nas bases!

   Assim, a ideia de alianças não deve ser rejeita, ao contrário disto, é uma ingenuidade negar a necessidade de alianças para a realização de nossas tarefas prioritárias. Entretanto, temos a clareza de que as alianças não são criadas de forma artificial pelo nosso desejo individual, mas são impostas pela materialidade do momento histórico em que vivemos e pelo movimento da realidade. A aliança se faz necessária a partir de uma pauta comum e para combater diretamente um adversário comum. A exemplo da greve de 2012, em que a unidade da esquerda foi essencial para tomamos frente do processo, deslegitimando os burocratas-representantes do movimento estudantil.

   Portanto, as alianças são necessárias, mas não se dão a qualquer custo: a imposição delas advém de um histórico de lutas da classe trabalhadora no qual há uma fragmentação da esquerda em diversos setores e correntes. Enfrentamos, assim, um momento de reorganização da classe e das organizações de esquerda, do qual o Movimento Estudantil não está de fora.

    A dificuldade de unidade que a esquerda enfrenta é determinada não só pelo recente histórico da classe trabalhadora no PT – e das diversas análises sobre seu fracasso – mas principalmente pelos efeitos da estratégia petista: ausência de lutas reais e mobilizações de massa, elementos que impõem um inimigo comum e uma pauta comum. O hábito que se tem atualmente entre a esquerda é forçar alianças de maneira artificial, sem que haja essa necessidade. Isso informa bastante sobre suas próprias concepções: a unidade normalmente se dá a partir de pautas artificiais como: “Oposição às políticas educacionais do governo do Lula/Dilma”. Ora, essas alianças artificiais para disputar o DCE não são nada mais do que reflexos de alianças artificiais que determinados grupos fazem para disputar o Estado!

   Assim, discordamos da análise de alguns camaradas de que uma das causas do refluxo e desorganização da classe seja a fragmentação da esquerda. Analisamos que a dificuldade que enfrentamos no movimento estudantil, hoje, é consequência da falta de inserção da esquerda nas bases dos estudantes, o que acarreta a ausência de referência destes na esquerda. Compreendemos, portanto, que a tarefa deste momento histórico é retornar aos nossos locais de estudo e construirmos neles a necessidade de lutarmos e nos mobilizarmos por melhorias nas nossas condições de vida dentro e fora da Universidade, elevando a consciência dos estudantes, fomentando lutas concretas, desenvolvendo novos mecanismos organizativos que dêem vazão a essas lutas. Influenciamos, assim, na condição para que as alianças sejam necessárias e impostas às organizações: a luta!

   Por isso, consideramos o Coletivo Quebrando Muros um importante aliado, já que temos nesse momento uma pauta prioritária em comum: construir a luta na base dos estudantes, cotidianamente, e utilizar e publicizar a forma de militar desenvolvida na greve deste ano; e um adversário em comum: os burocratas-representantes do ME.

   Não podemos, entretanto, não nos posicionar frente ao processo das eleições para o DCE que se aproxima, por mais que não disputemos a entidade. Votaremos nulo nessas eleições, por compreender que, hoje, as lutas estudantis não precisam passar por esse instrumento: temos condições, por conta das lutas recentes travadas na UFPR, de organizar os estudantes pela base, sem a necessidade de uma entidade geral que os represente.

   Diferente das eleições burguesas, em que somos obrigados a votar, nas eleições do DCE o processo é facultativo: vota o estudante que quiser. Entendemos que o período de campanha do DCE é um período diferenciado na vida da universidade, tem-se a abertura de diversos estudantes para um possível diálogo e a possibilidade de propagandearmos o processo que vivemos na greve. Por mais limitado que seja o voto, fazer com que o estudante minimamente se interesse pelo que está acontecendo, leia os programas das chapas, debata com os outros estudantes e se posicione, pode ser considerado um avanço importante. Assim, está dada neste momento uma contradição interessante: o estudante ao votar, legitima o instrumento do DCE, mas mostra – pela opção do voto nulo – que neste momento temos a real possibilidade de manter o movimento por fora da entidade e na base dos estudantes.

   Sabemos que as movimentações que aprendemos e efetivamos na UFPR nos serão valiosas para nosso futuro enquanto trabalhadores. Precisamos fazer as análises de cada momento do movimento e ousar criar novas formas, explorar as possibilidades de atuação por fora da entidade e conseguir avaliar com quem devemos nos aliar para alcançar nossos obejtivos.

   Reiteramos que para nós não é um princípio disputar o instrumento do DCE, muito menos não disputá-lo. Compreendemos que a principal tarefa da esquerda nesse momento é estar na base dos estudantes, nos locais de estudo, construindo a organização deles – seja via CAs, seja por fora deles – de forma a superar a maneira burocrático-representativa de militar. Estar no local de estudo significa priorizar essa tarefa, entendendo a importância dela para a consolidação de um ME ativo e politizado. Defendemos o voto nulo nas eleições do DCE, impondo à possibilidade da construção de um movimento de organização na base dos estudantes, que legitime e publicize a forma de militar com os estudantes, provando a materialidade daquilo que tanto defendemos: só a luta muda a vida!

Coletivo Outros Outubros Virão

 

Curitiba, 11 de novembro de 2012

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