Nota sobre as eleições do DCE da UFRGS

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Vivemos no Brasil um momento político caracterizado pelo fim de um ciclo de lutas e o início de um novo. Nosso último ciclo de lutas foi o ciclo PT, nascido principalmente das manifestações operárias dos metalúrgicos do ABC paulista nos fins da década de 70 e início de 80 e tendo como emblema de seu fim a eleição de Lula em 2002.

De iniciais contestadores radicais da ordem e centrados mais nas manifestações nas fábricas, bairros e escolas, os trabalhadores e seus principais instrumentos políticos construídos na época, o PT, a CUT, o MST, e a UNE, foram aos poucos perdendo seu caráter combativo e abandonando as lutas nas ruas, e direcionando mais suas forças à disputa institucional do Estado. Dirigentes sindicais e estudantis foram cada vez mais deslocados de seus locais de trabalho e estudo e dirigidos a ocuparem cargos parlamentares ou adjacências, de forma que o que inicialmente era “apenas mais uma forma de luta” (a institucional) tornou-se o pilar de sustentação da existência das movimentações. É desse período de lutas que data o Projeto Democrático e Popular, projeto estratégico traçado pelos trabalhadores, que foi como um guia da ação do Partido dos Trabalhadores, cujos resultados a história e os atuais posicionamentos desse partido demonstram claramente.

Nesse ínterim de defrontar-se com os obstáculos do cotidiano e elaborar formas de combatê-los, a classe trabalhadora engendrou na época analisada um certo trabalho militante que dava conta das necessidades daquele momento em especial, e que podemos chamar de ser social petista. Esse ser social foi criado e incorporado pelos próprios trabalhadores, assim como seus sindicatos e organizações políticas, e tinha como características: o hegemonismo,o personalismo, o aparelhamento partidário das entidades, a representação em detrimento da participação dos trabalhadores, a construção de maiorias artificiais em congressos, a não-priorização do embasamento teórico marxista, entre tantas outras.

Inevitavelmente, a história avança e as práticas ficam. Basta uma rápida observação ao movimento estudantil (ME), que nada mais é que uma das manifestações do movimento dos trabalhadores, que vemos as atuações da esquerda em geral recheadas desse conteúdo correspondente ao velho período de lutas.

E a UFRGS, como não poderia deixar de ser, não foge deste cenário. Temos, pelo menos desde 2007, com exceção de 2010, praticamente os mesmos grupos políticos na gestão do DCE, que vem ano a ano repetindo, ora mais ora menos, essa prática forjada no nosso último ciclo de lutas, ou seja, aumentando a burocratização da entidade em detrimento da aproximação do conjunto dos estudantes, aparelhando a entidade com os programas de seus partidos, e muitas vezes servindo, ao invés de catalisador, de entrave à movimentação dos estudantes nos seus mais variados cursos.

Esse modus operandi foi um dos importantes motivos que, por exemplo, fez com que se aumentasse a organização de partidos e setores tradicionalmente conservadores e reacionários na UFRGS, além do crescimento da expressão de organizações de verniz contestador mas que tem “rabos presos” demais para pôr em prática aquilo que dizem querer, como o caduco PT, o PC do B, entre outros. O quadro que se apresenta na UFRGS, portanto, tem determinantes também na própria práxis militante que a esquerda vem praticando nos últimos tempos, e que não poderá superar se não fizer um profundo movimento de autocrítica e reflexão.

Pontuar que estamos no início de um novo ciclo de luta dos trabalhadores no Brasil significa também que este é um período de reorganização desta classe social. Nossa organização enquanto classe ainda está em fase larvar, e será necessário um árduo e duradouro trabalho até que amadureçamos a ponto de o movimento dos trabalhadores poder construir a organização política que será a marca deste novo ciclo. O momento atual tem se caracterizado, pois, por uma maior dispersão e pulverização das organizações dos trabalhadores, de uma esperada fragmentação das mesmas.

É nesse contexto que se desenvolve também a reorganização do movimento estudantil. Estamos, na UFRGS, divididos nas mais variadas organizações, coletivos, e cursos. Por vezes, no entanto, nossas necessidades de organização da luta na universidade nos impelem a buscarmos aliados para alcançar determinados objetivos; como para a conquista de aumento da capacidade do RU da Saúde, por exemplo, aliar os vários Centros e Diretórios Acadêmicos deste campus é um artifício que pode ser usado tanto para tornar menos difícil a vitória, como para lutar contra a burocracia da universidade, ou para os próprios integrantes do CA/DA aprenderem a organizar manifestações mais complexas.

Para eleições de CAs/DAs e DCEs, também se aplica a regra. Organizações, coletivos e cursos buscam determinadas alianças, ora dirigidos ora dirigindo, conforme estas tenham maior ou menor probabilidade de facilitar o alcance de certos objetivos, como conhecer mais a universidade, ter acesso a algum curso, ou mesmo ganhar experiência na relação com outras organizações e o movimento geral. Foi para alcançar determinados objetivos, por exemplo, que participamos da chapa 5 nas eleições de 2011, e podemos dizer que vários deles nós alcançamos, estando abertos a debater quais foram nossas necessidades daquele momento, assim como quais foram os elementos que nos nortearam para fazer a autocrítica em relação a não ter conseguido impedir a participação de um setor do PT na referida chapa.

Para 2012, no entanto, analisamos que nossa participação nas eleições do DCE da UFRGS se daria somente sob certas condições, que não se concretizaram. Levamos em conta, por exemplo, que somos um coletivo ainda de não muita expressão política na universidade a ponto de levar adiante um projeto mais semelhante ao nosso em alguma chapa, e que a história do ME na UFRGS e a conformação das chapas este ano nos dava muito mais a impressão de que nenhuma delas propiciaria o debate e atuação políticos em cima das questões primordiais que permeiam as necessidades de reorganização do movimento dos trabalhadores e dos trabalhadores em formação (estudantes) citados. Apesar de no plano das idéias a unidade da esquerda às vezes nos parecer quase uma obviedade, para nós ela só pode ocorrer a partir de uma análise detida da realidade, como resultado de um processo persistente e contínuo que se dá no plano material, concreto, das lutas, e é preciso mais que simples vontade ou intenção para que ela se sustente de fato. Decidimos, portanto, não construir nem apoiar nenhuma chapa e focar nossa atuação nesse momento em nossa prioridade: o trabalho junto aos estudantes.

Acreditamos que a conjuntura atual da UFRGS nos traz a necessidade de intensificar o trabalho na base dos estudantes nos diversos cursos, aliado a uma formação teórico-política aprofundada, embasada no materalismo histórico-dialético, de forma a ajudar a criar um movimento de base intenso o suficiente que traga a conquista da gestão do DCE como uma necessidade organizativa para que esse mesmo movimento seja impulsionado por esse instrumento. Pensamos que a participação nas entidades em geral não pode ter um fim em si mesma, mas sempre estar dentro de um plano coletivo de atuação, onde essa participação seja apenas mais uma ferramenta a ser utilizada como forma de potencializar o cumprimento de determinados objetivos.

Seguiremos à disposição para contribuir não só com o movimento estudantil da UFRGS, mas com a movimentação geral dos trabalhadores, certos de que esta será uma tarefa a ser cumprida por toda a esquerda, esteja ela nas organizações já existentes, esteja ela em cada um dos estudantes que buscam, por detrás das cinzentas nuvens da falta de organização estudantil, alguma luz que os ajude a dar os passos necessários rumo à construção de outra sociedade.

Saudações comunistas,

Coletivo Outros Outubros Virão

Porto Alegre, 7 de dezembro de 2012.

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