Carta de apoio crítico à chapa 2 ‘Muda, DCE’ nas eleições para o DCE da UFSM

Olá estudantes da UFSM,

Nós somos os coletivos Outros Outubros Virão e Barricadas Abrem Caminhos, dois grupos que atuam no movimento estudantil buscando contribuir com debates e mobilizações nos mais variados locais de estudo das universidades. Na UFSM, estamos presentes, já há alguns anos, no apoio e construção de movimentações por melhores condições de estudo e trabalho, do que é exemplo a histórica ocupação da reitoria em 2011, quando os estudantes se organizaram para reivindicar melhorias estruturais e acadêmicas nos cursos e na universidade como um todo. Também na greve de 2012, momento em que os três segmentos – docentes, estudantes e técnico-administrativos em educação – da instituição cruzaram os braços para pressionar o governo a atender as demandas, oferecemos nossa força e solidariedade aos companheiros.

Vivemos, agora, o período de eleições para o Diretório Central dos Estudantes (DCE), a maior entidade representativa dos estudantes da UFSM. Sabemos que a universidade tende a estar, ainda que timidamente, mais aberta ao debate político durante esses dias. E é por isso que escrevemos essa carta em conjunto, pois achamos necessário socializar análises e, nesse processo, concordar, divergir, questionar, modificar, mas, acima de tudo, encontrar algo que nos una para além de um momento específico, cristalizando uma aliança sólida o suficiente para encampar outras lutas.

Há quase ininterruptos 16 anos temos o mesmo grupo político à frente de nosso DCE, a Articulação de Esquerda, corrente interna do Partido dos Trabalhadores (PT). Este ano, estão representados na chapa ‘É tempo de avançar’. O período que marca suas gestões vem acompanhado de um crescente processo de burocratização da entidade em si e das instâncias deliberativas estudantis. Não vemos o nosso DCE como um aliado firme em nossas lutas cotidianas, não o reconhecemos, hoje, como catalisador de nossas mobilizações, não construímos, com ele, os rumos de nossa universidade. Um exemplo concreto disso se deu nas mobilizações de junho em Santa Maria, quando milhares de pessoas saíram às ruas reivindicando não apenas a derrubada do aumento, mas a redução da tarifa de ônibus. Na contramão desse movimento, o DCE chama Conselhos de Entidades de Bases (CEB) – reuniões onde apenas os Diretórios Acadêmicos (DA’s) possuem voto – para definir os rumos das manifestações. Mas essas extrapolavam, em muito, a nossa universidade! Como aceitar que apenas alguns DA’s falem e decidam em nome de milhares? Como contemplar, nesse espaço limitadíssimo, as vozes da periferia, dos locais de trabalho, das escolas, de outros tantos lugares que se colocaram em luta? Esse foi um episódio expressivo do engessamento promovido pela atual gestão, que, ao institucionalizar as mobilizações – levando-as para dentro de reuniões fechadas, isoladas e restritivas – consegue, muitas vezes, frear a potencialidade que tem o movimento estudantil.

E então nos perguntamos o porquê dessa postura política adotada pela atual gestão. Além de estar diretamente ligada ao governo federal, funcionando como um braço desse governo em nossa universidade, ela é expressão de um projeto, implementado pelo PT nos últimos dez anos em que está na gerência do Estado brasileiro. Esse projeto sustenta-se na tentativa de conciliar interesses que, na verdade, são antagônicos e inconciliáveis. Ou seja, de apaziguar as batalhas entre aqueles que detêm muito – a classe dominante – e aqueles que nada têm a não ser sua força de trabalho para vender – os trabalhadores. Para conseguir amortecer esse choque, uma das maneiras adotadas pelo PT é deslocar lutadores que estão mobilizando em seus locais de estudo, trabalho e moradia, para ocuparem cargos dentro do Estado burguês, numa institucionalização que gera o enfraquecimento das lutas e cria a falsa ideia de que é possível, por dentro de órgãos estatais e através de acordos distanciados do povo, modificar as precarizadas situações de vida e avançar na emancipação humana. No movimento estudantil da UFSM, então, a AE/PT é um reflexo direto do projeto petista que, apesar de toda esperança encontrada no peito da população brasileira, não mais corresponde aos anseios concretos da juventude e dos trabalhadores.

Cabe lembrar que, este ano, a AE firmou aliança com um outro coletivo, o Levante Popular da Juventude. Na prática, as propostas das duas organizações são muito similares, tanto que foi possível, entre essas, uma síntese que levasse à formação da chapa conjunta. Assim como a prática petista, a política do LPJ não se propõe a superar os entraves colocados às lutas cotidianas. Pelo contrário, quando se posicionam ao lado da atual gestão na escolha dos CEBs para engessar o movimento de milhares, ou nos momentos em que saem em defesa dos projetos precarizantes do governo federal – dos quais a reforma universitária é um exemplo – mostram, na prática, de que lado estão.

Vemos, então, a necessidade de nos contrapormos a essas velhas formas de fazer política – burocratização, institucionalização, entrave às lutas das massas nas ruas -, herdadas de um projeto que, como tentamos demonstrar acima, já mostrou seu fracasso. Uma vez que somos estudantes, nosso enfrentamento a tudo isso se dá, principalmente, dentro da universidade. E é a partir desse contexto que avaliamos a necessidade de um projeto que busque o novo.

UM DCE À ESQUERDA

Durante o processo eleitoral deste ano, alguns estudantes formaram uma chapa de oposição à atual gestão do DCE. Com o nome ‘Muda, DCE’, os companheiros defendem a necessidade de que tiremos o governismo da direção de nossas lutas e situemos nossa entidade à esquerda. Essa também é uma defesa nossa, entretanto, a forma como se compôs essa outra chapa foi incoerente com a postura política que se espera da esquerda em um momento de fragmentação e refluxo das mobilizações. Fragmentação e refluxo, pois um dos resultados da política de conciliação é, justamente, o imobilismo das massas e o corporativismo das pautas, lógicas que levam a não nos vermos, todos, como parte de um mesmo corpo de lutadores que, apesar das especificidades, possuem objetivos em comum. Num cenário onde as contradições se acirram – retirada de direitos, precarização das condições de vida, remoções de famílias tendo em vista à Copa do Mundo, repressão policial – é mais do que necessário que nós, estudantes localizados à esquerda, consigamos firmar uma unidade para nos contrapormos a tudo isso.

Entretanto, encabeçada pelos coletivos União da Juventude Comunista (UJC) e Juntos!, a chapa ‘Muda, DCE’ não se propôs a construir um processo unitário com os grupos combativos de nossa universidade. Quando tentaram compor as plenárias que definiriam o programa político a ser defendido pela chapa, alguns importantes camaradas foram vetados de participarem, sob justificativa de que seria muito difícil se chegar a uma síntese que balizasse uma atuação conjunta no processo eleitoral. Isso é bastante problemático, pois, com tantos ataques sendo feitos à juventude e aos trabalhadores do país, espera-se que, ao menos na esquerda, façamos um esforço para somarmos camaradas em uma frente única de resistência e enfrentamento a todas essas barbáries impostas. Entendemos, contudo, que os coletivos estudantis possuem diferenças – algumas, inclusive, bastante expressivas – e que suas autonomias devam ser respeitadas em um processo de aliança. Mas isso, para nós, não justifica uma conduta como a adotada pela chapa da esquerda este ano.

Vimos o quão deficitária foi essa construção, pois não contribui para a criação de novas formas de resistência e organização no movimento estudantil. Pelo contrário, reforça as velhas práticas já citadas, pois a fragmentação dos lutadores é uma estratégia hegemônica em nosso tempo, utilizada por diferentes governos, desde aqueles escancaradamente de direita até os travestidos de esquerda. Ficam aqui explicadas nossas críticas aos camaradas pelo processo de construção da chapa ‘Muda, DCE’. Acreditamos que essa experiência poderá ser válida para todos nós quando, mais tarde, fizermos o balanço de nossas práticas.

Entretanto, apesar de pontuarmos tais divergências, apoiamos sinceramente essa chapa. Entendemos a necessidade da unidade dos lutadores de esquerda dentro da UFSM para combater o governismo. Para nós, se ganhar, a chapa 2 não resolverá todos os nossos problemas e nem superará todas as velhas formas de se fazer movimento, mas estará ao lado dos estudantes em suas mobilizações de resistência e enfrentamento. A necessidade de apoio à chapa dos companheiros fica ainda mais nítida se olharmos para os grandes levantes ocorridos no Brasil em junho deste ano, quando milhares de estudantes e trabalhadores foram às ruas reivindicar transporte público, saúde, educação, moradia, dentre tantas outras demandas sociais há tanto tempo negligenciadas. Como resposta, os diferentes governos estaduais, em consonância com a prática do PT no governo federal, deram ordens para que uma grande parte do aparato policial fosse deslocado até as manifestações a fim de reprimí-las. Foram muitos os lutadores que sentiram a mão pesada do Estado em seu corpo, além de serem individualmente perseguidos e ameaçados. Podemos encarar 2013 como um termômetro para o ano que vem, porque na iminência da Copa do Mundo, com grandes empresas ‘investindo’ em nosso país, as contradições tendem a se acirrar mais. Serão famílias removidas de forma brutal de suas casas, Forças Armadas autorizadas a reprimir manifestantes e classificação de militantes como terroristas.

O movimento estudantil, a exemplo de tantos outros momentos históricos de nosso país, terá um papel muito importante nesse próximo período. E é esta certeza que nos faz, hoje, apoiar a chapa ‘Muda, DCE’, pois, mais do que nunca, necessitaremos de uma entidade potencializadora de nossas lutas. Esse voto de confiança na chapa 2 é necessário pois uma gestão de esquerda, que não institucionalize as lutas, que não seja um braço das políticas do governo e que construa com os estudantes daria outra qualidade ao movimento estudantil da UFSM. Isso, com o prolongamento da atual gestão, certamente não se dará, visto todo seu atrelamento às políticas do governo PT.

O MOMENTO É DE REORGANIZAR!

Os dois coletivos que assinam esta carta não estão compondo nenhuma das chapas que disputam as eleições para o DCE UFSM. Isso se dá tanto pela conformação da chapa de esquerda – com todas as críticas já apontadas aqui – quanto pela nossa análise do momento político atual. Para nós, o amortecimento das batalhas, a cooptação dos lutadores e a burocratização das mobilizações foram tão intensas que é necessário reconstruirmos, aos poucos, nossas próprias formas de luta e resistência. Desse modo, é preciso enxergar em cada colega um importante aliado para nosso objetivo, ainda que esse colega ainda não tenha aberto os olhos para as contradições. É nosso papel voltarmos aos cursos onde estamos inseridos, tentarmos entender de que maneira os problemas dali se relacionam com os enfrentados na universidade de forma geral e construirmos canais de diálogo com os estudantes. Esse é o tão defendido ‘trabalho de base’, uma das principais premissas que deve balizar um coletivo proposto a superar a burocracia, a institucionalização e o imobilismo das massas. Optamos, então, por nos voltarmos a debates em nossos cursos, à disputa paciente e histórica das consciências ainda amortecidas, à construção de novas formas organizativas que tentem sinalizar caminhos para as demandas e lutas estudantis.

Não negamos a importância de um DCE, inclusive já explicitamos nosso apoio a uma das chapas, mas defendemos que a luta não passa só por dentro das instituições. Logo, ao não disputarmos esse processo eleitoral, também não nos eximimos de fazer nosso papel frente ao movimento estudantil, já que, certos da importância dos estudantes no cenário de mobilizações nacionais, tentamos construir, diariamente, pólos combativos dentro da universidade. Um dos maiores exemplos de que é possível chegar à estudantada mesmo sem estar num DCE é o grupo de debates que, ao lado de outros importantes coletivos e camaradas, estamos compondo. O ‘Construindo debates’ é uma tentativa de mobilizar os estudantes em torno de pautas e debates que não se findem na universidade, mas abordem problemas e desafios mais amplos, como os próprios megaeventos de 2014 e 1016 no Brasil.

Todos os dias, em diversos cantos de nossa universidade e do país, há estudantes e jovens se organizando e se movimentando contra as mais variadas formas de injustiça social. Mais recentemente, na UFSM, estudantes e trabalhadores se uniram em torno de um Fórum em defesa do HUSM e contra a EBSERH (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares), um ente privado que está vindo para gerir nosso hospital universitário, até então de caráter público e universal. Fizemos panfletagens, tentamos dialogar com a comunidade universitária e com a população de Santa Maria, fortemente dependente do atendimento desse hospital. Apesar de todas as ameaças e investidas do governo federal e de seus representantes dentro da universidade, continuamos na defesa da saúde pública e pensando novas formas de barrar a privatização do HUSM, hospital referência em atendimento para milhares de pessoas da região.

E a EBSERH é só mais um capítulo escrito pelos movimentos e estudantes combativos dentro de nossa universidade. Muitos outros projetos precarizantes ainda serão nos impostos, por muitas outras reivindicações ainda nos colocaremos em movimento, muitos outros momentos virão em que será necessário aglutinar todos os lutadores da esquerda em uma grande frente capaz de ganhar essas batalhas e garantir a permanência de direitos historicamente conquistados. E precisaremos estar juntos. Por isso, não nos basta que a esquerda consiga uma síntese para formação de uma chapa de disputa ao DCE – o que não aconteceu este ano -, mas nossa unidade deve se dar para além dos processos institucionais. É momento de sentarmos, debatermos nossas divergências – conservando muitas dessas -, fazermos nossa auto-crítica e listarmos o que nos unifica. Para fazer frente a todas as investidas que ainda virão contra nossa universidade, nossos direitos, nossa humanidade, nós, lutadores, precisamos estar lado a lado, fortalecidos por um programa coeso e unitário de enfrentamento sistemático àqueles que, diariamente, atacam nossas condições de vida e nos negam a opção por uma outra sociedade.

Deixamos aqui nossas sinceras intenções de construções conjuntas, de alianças programáticas, de coesão na prática, de companheirismo na luta.

Saudações aos estudantes, porque a luta é todo dia!

Coletivos Barricadas Abrem Caminhos e Outros Outubros Virão

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