Um passo a frente no Movimento Estudantil para os Estudantes, um passo atrás na Burocratização do Movimento Estudantil

Na última quinta-feira, dia 21 de novembro, aconteceu uma assembléia estudantil para aprovação do novo estatuto do DCE – FURG. De lá para cá, algumas distorções aconteceram a respeito da conformação e do processo que gerou o estatuto tal como ele está.¹ Aqui nos propomos a não somente explicar os acontecimentos, mas destrinchar o plano de fundo das nossas defesas políticas. Por entender que passamos por um momento no qual o movimento estudantil está desestruturado, acreditamos que seja necessário reorganizá-lo e isso perpassa pelo aprofundamento do debate político enquanto tarefa prioritária.

Depois de muitos anos de imobilidade política, algo novo emergiu na assembleia geral dos estudantes da FURG. Um avanço ainda sutil e pouco valorizado despontou como possibilidade de mudança no cambaleante, no entanto resistente, movimento estudantil local. Mas antes de entrarmos no mérito dessas vitórias cabe fazermos um retrospecto do contexto maior que gerou essa importante assembleia. Dessa forma, as deliberações e os embates que lá aconteceram serão melhor compreendidos.

Contexto Geral

A atualidade política brasileira é caracterizada pelo fim de um longo ciclo de lutas dos trabalhadores e dos movimentos sociais iniciado nas grandes mobilizações das décadas de 1970/80. Esse ciclo conseguiu, entre tantas vitórias, a redemocratização do Brasil, a criação da Central Única dos Trabalhadores, a refundação da União Nacional dos Estudantes e a criação de um projeto político que, de forma geral, unificou a classe trabalhadora durante determinado tempo. Foi o chamado Projeto Democrático Popular o qual se estrutura, basicamente, em dois eixos: em um eixo a mobilização das massas e no outro a ocupação do aparelho do Estado para modificá-lo por meio de Reformas até chegar em uma transformação estrutural da sociedade. A análise de como esta estratégia se manifestou na prática deve ser nosso ponto de partida para elencarmos nossos erros e acertos e, assim, reestruturarmos nossa maneira de atuação no movimento estudantil.

Da decada de 80 pra cá, o eixo da disputa institucional foi ficando mais espesso, e se tornando prioridade, vimos reflexo disso em todos esses instrumentos. Os dirigente sindicais saíram de perto dos colegas de sua base para ocuparem cargos, tornando-se vereadores, deputados, prefeitos. Assim, as mobilizações de massa tornaram-se secundárias e os trabalhadores perdidos e desmobilizados. As organizações (UNE, CUT e PT) que no passado serviram de mecanismo de centralização e representação efetiva dos interesses de seus representados se perderam na luta eleitoral e na “governabilidade”. Tais lideranças e organizações degeneraram nas conciliações feitas  dentro, dos gabinetes, da burocracia estatal e dos acordos com o grande empresariado. A UNE e a CUT, como é amplamente sabido, se transformaram em instrumentos (com financiamento, inclusive) do governo federal. Além disso, toda uma forma de militância intimamente associada a esse período ficou como resquício de lutas anteriores. Muitos militantes de diversos movimentos, inclusive do movimento estudantil, reproduzem esse comportamento “tradicional” de luta sem sequer refletir sobre ele e se tais táticas se aplicam ao contexto atual. As falas agitativas razas sem conteúdo (até mesmo raivosas), a espontaneidade na ação (mobilizações feita no calor do momento), o tarefismo (execução de tarefas e mais tarefas sem reflexão sobre quais devem ou não ser executadas) e o personalismo (centralizar em uma única pessoa a imagem de toda construção coletiva, propiciando um trampulim eleitoral) são um verdadeiro estereótipo seguido e pouco questionado por grande parte dos militantes.

Vimos que esse ciclo gerou muitos vicios na esquerda, os quais precisamos superar na nossa prática. O PT há muito não representa os interesses dos trabalhadores. O distanciamento entre os dirigentes e a base dos movimentos é nítido, o que indica que este ciclo está no fim, entretanto com ele ficaram algumas “heranças” que atravancam a organização do movimento estudantil.

E o que isso tem a ver com a assembleia?

O Movimento Estudantil da FURG, obviamente, não está à parte de todo esse processo, de toda essa dinâmica histórica que vivenciamos nacionalmente. Aqui vemos essas “heranças” sendo reproduzidas ano após ano. As últimas gestões do  Diretório Central dos Estudantes da FURG foram hegemonizadas pela Juventude do PT e pela União da Juventude Socialista (associada ao PCdoB, partido da base do governo federal). No entanto, desde a greve de 2012 o cenário do movimento estudantil tem mudado consideravelmente. Diversos grupos e coletivos estudantis tem surgido e feito diferentes formas de oposição a essa política hegemônica. O debate e a discussão, a construção pela base que parecia há muito estar perdida no movimento estudantil da FURG deu sinais de que está saindo do coma.

A expressão do último ciclo de lutas fica clara já no primeiro ponto de discussão durante a assembleia do dia 21. Um dos primeiros artigos da proposta de estatuto feita pela atual gestão pontuava o reconhecimento da União Nacional dos Estudantes enquanto entidade representativa em âmbito nacional do DCE-FURG, sem nem mesmo terem se proposto a fazer uma discussão sobre as outras formas de organização nacionais existentes e possíveis. Porém, felizmente, a proposição de suprimir o artigo e tomar a decisão sobre a questão da UNE em um Congresso de Estudantes Local, a ser construído ao longo do ano de 2014, acabou ganhando.

Nós do coletivo Outros Outubros Virão defendemos que nesse momento construir e disputar organizações como a UNE é contribuir para a política que as perpassa e as define, ou seja, é continuar perdendo energias num espaço em que a maior parte dos estudantes não está. Se analisamos que um dos erros do último ciclo de lutas foi distanciar-se da base dos estudantes e trabalhadores e priorizar a disputa das entidades, que sentindo faz compormos espaços como a UNE? Vemos que a UNE está burocratizada e dependente  do governo de tal maneira que não consegue independência deste, não conseguindo, por consequencia, se desvincular de suas pautas. Um exemplo claro disso é que, em 2012, quando a base dos estudantes estavam mobilizadas em greve e construindo pautas, a UNE entrou pela porta dos fundos do Ministério da Educação e negociou pautas que não condiziam com as retiradas nas assembleias dos estudantes em diversas universidades do Brasil, inclusive na FURG, mas condiziam com as propostas medíocres que o governo petista poderia oferecer aos estudantes.  Para maiores informações, leia nossas teses sobre a UNE² ³

Esta mesma entidade que não prioriza o aprofundamento político e toma suas decisões no grito não cumpre há muito tempo seu papel de protagonista do movimento estudantil no Brasil. Decidimos, portanto, apoiar a retirada do reconhecimento da UNE no estatuto. Outros grupos como o Coletivo Nacional Levante! e a Casa do Estudante do Campus Carreiros concordam com a supressão do artigo, não por compartilhar da análise de que a UNE é indisputável, mas por concordar com a a defesa  de que não é possível saturar a discussão sobre a representatividade da UNE em apenas uma assembleia, e entenderem a necessidade de construir instrumentos para discutir as diversas análises sobre o tema antes de fixa-la a todo custo no estatudo da entidade.

Outra questão que vale a pena destacar é a proposta de institucionalizar 12 cordenadorias obrigatórias para a construção de chapa para o DCE como a de diversidades e meio ambiente com a argumentação de que tais políticas só seriam tocadas caso houvesse tais coordenadorias no estatuto. A prática do movimento estudantil da FURG mostra que essa “segurança” não passa de utópica e só favorece chapas que possuem uma política com vistas apenas de inchar quantitativamente o espaço do diretório numa falácia de que isso garantiria a representatividade dos interesses dos estudantes quando na verdade garante apenas que um núcleo central e mais atuante toque sua política (já bem explicada e adjetivada acima). Tal estrutura de Diretório só favorece grupos políticos hegemônicos, uma vez que somente eles teriam possibilidade de reunir tantas pessoas numa chapa e acaba por cercear politicamente grupos menores e contestatórios a esse modelo político de disputarem a direção do DCE. A atual gestão do DCE da FURG e a UJS confundem representatividade com quantidade. Confundem qualidade política com burocratização da política. Não é uma coordenação de diversidades que garantirá uma política de diversidades e sim uma política de diversidades que garantirá a existência de uma coordenação de diversidades. Enfim, ganhou a proposta que diminui de 24 para 15 o número de membros mínimos do Diretório sendo facultativas a maior parte das coordenadorias. Assim, as chapas não podem mascarar sua política por trás de uma burocracia pseudo-democrática e grupos menores, quantitativamente, dentro do movimento estudantil podem disputar com relativa igualdade as eleições para o DCE.

O terceiro ponto discutido foi sobre a forma como será feita a eleição para o Diretório, se presencial ou online. A principal razão para a defesa de uma votação presencial é pela maior segurança que cédulas físicas possuem em relação a um sistema eletrônico, no qual descobrir quem votou em quem e até mesmo burlar o próprio sistema é muito mais fácil de ser feito e difícil de ser descoberto. Fora a questão de segurança um outro elemento importantíssimo é o significado simbólico e prático de uma eleição onde as pessoas vão até o espaço de votação depositar sua escolha. De forma alguma campanhas via internet e redes sociais são dispensáveis, porém quando a votação é online é tendência que o debate seja prioritário no ambiente em que a escolha dos votantes irá de fato acontecer, no caso o ambiente virtual. É claro que não estamos fazendo uma análise mecânica defendendo que a votação presencial por si só garantiria grande debate político.         Em última instância o que define a qualidade da discussão política num processo eleitoral é a qualidade da discussão proposta pelas chapas. Contudo, ao se escolher pela votação presencial se está escolhendo por haver a tendência de que as campanhas das chapas se foque no ambiente em que a votação ocorrerá. Tendo em vista que nenhuma forma de interação humana supera a qualidade da interação “olho no olho” acreditamos que na escolha entre esses dois modelos de votação não há razão para escolher a forma online. Felizmente, a proposição que defendemos saiu vitoriosa, mas por uma questão de falta de organização da gestão atual não há tempo habil para organzação das urnas.

O que fazer?

Acreditamos que para uma política voltada para os estudantes e não para as “lideranças” é necessário que o movimento estudantil reaprenda a dialogar consigo mesmo. Reaprenda a construir sua luta no cotidiano das conversas com os colegas de aula, nas conversas de corredores, nas conversas no Centro de Convivência, enfim, precisamos abandonar essa política de “trampolins eleitorais” e reorganizar um movimento estudantil que não seja pelos estudantes, mas com os estudantes.

Não será na mudança de um estatuto, uma regra ou uma lei que mudaremos a prática do movimento estudantil. A prática mudamos na luta diária ombro a ombro, na construção lado a lado dos estudantes elaborando formas de levar os debates centrais do movimento estudantil, para as bases. Diferentemente das forças que dão mais ênfase a via institucional, entendemos a mudança do estatuto apenas como parte da luta diária, não como fim em si mesmo.

Nós do coletivo Outros Outubros Virão escrevemos essa nota como forma de esclarecer o movimento estudantil local e nacional quanto aos nossos posicionamentos em relação aos históricos e vitoriosos acontecimentos ocorridos na assembleia do dia 21 de novembro de 2013. Alguns chamam de retrocessos as conquistas dessa assembleia. Nós chamamos de superação da burocracia estudantil.

“Não estamos perdidos. Ao contrário, venceremos se não tivermos desaprendido a aprender”

Rosa Luxemburgo

¹http://www.dcefurg.blogspot.com.br/p/proposta-de-estatuto.html
²https://outrosoutubrosvirao.files.wordpress.com/2009/06/enterrar-a-une.pdf
³https://outrosoutubrosvirao.files.wordpress.com/2009/05/nem-une-nem-nova-entidade5.pdf

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