Sobre a disputa política na regional sul 2 da Denem.

Essa nota tem como função esclarecer o que militantes do Coletivo Outros Outubros Virão defenderam na última reunião da Regional Sul-2 da DENEM (Direção Executiva dos Estudantes de Medicina), a partir da qual outros militantes passaram a desqualificar não só a nossa posição na reunião, mas também a nossa atuação enquanto coletivo como um todo. Nosso objetivo ao tornar pública nossa posição quanto a um ataque no Facebook é mais do que meramente defender a “imagem” do coletivo em relação à polêmica, mas trazer elementos que contribuam com uma crítica política a forma com que se tem dado o processo de disputa política na DENEM.

É necessário, em primeiro lugar, contextualizar a disputa colocada na ocasião. O objetivo do espaço foi definir a programação para o próximo EREM (Encontro Regional dos Estudantes de Medicina). Na ocasião, a local que sediará o encontro – Diretório Acadêmico Nilo Cairo, Curitiba – havia indicado o nome de uma militante do coletivo e coordenadora regional da DENEM, Natália Ortensi, para a realização de uma fala sobre Determinação Social do Processo Saúde Doença em uma das mesas de debate do encontro. Foi sugerido, na reunião, a substituição desse nome pela Coordenadora Geral da DENEM, Monique França.

A defesa do nome de Monique foi que não haveria diferença de conteúdo e que ela teria uma retórica melhor, desenvolvida a partir de vários espaços que já teve oportunidade de fazer. Os militantes do coletivo presentes no espaço afirmaram que havia divergência na linha política e que esse deveria ser o foco da discussão. Além disso, Natália, apesar de não ter experiência em fazer falas em mesas, teria condições de assumir a fala, e, conjuntamente, a DENEM ao pautá-la estaria cumprindo uma de suas funções que é a de contribuir para a formação de seus militantes, qualificando-os para fazer falas. Houve uma intensa e saudável disputa política no qual o nome de Natália passou. Hora nenhuma colocamos que a militante Monique não defendia a DSPSD, mas sim que discordávamos da sua abordagem sobre o tema. Diversas organizações se apropriam do termo DSPSD, mas não com mesmo enfoque. O que se sucedeu alguns dias depois foram ataques pelo Facebook às pessoas que defenderam o nome de Natália.

Nós, do coletivo Outros Outubros Virão, utilizamos o materialismo histórico dialético para entender a realidade. Assim, defendemos que “o processo saúde-doença é determinado pelo modo como o homem se apropria da natureza em um dado momento, apropriação que se realiza por meio de processo de trabalho baseado em determinado desenvolvimento das forças produtivas e relações sociais de produção”. Assim, temos que, dependendo da maneira pela qual os indivíduos se relacionam entre si para produzir a vida em sociedade, essa sociedade será “mais doente” ou “mais saudável”. Ao aplicarmos tal conceito à nossa sociedade capitalista, na qual temos uma classe que enriquece às custas da exploração e uma outra classe (bem maior em número) que não é dona do fruto de seu trabalho e sobrevive apenas vendendo sua força de trabalho, percebemos que a DSPSD está intrinsecamente relacionada ao trabalho, elemento central que articula o desgaste e a reprodução da força de trabalho (e portanto do trabalhador) a partir de sua inserção no modo produtivo, ou seja, é o elemento que delimita a possibilidade de acesso e apropriação dos produtos do próprio processo de trabalho ao mesmo tempo que determina sua exposição aos processos tipicamente tidos como “fatores de risco” e “condições ambientais”. Portanto, a única saída para deslocar o processo saúde-doença no sentido contrário da doença é mudando de forma radical as relações sociais vigentes, ou seja, destruindo a sociedade capitalista e construindo outra sociedade com relações mais saudáveis em seu lugar.

Divergimos, então, da linha que verificamos na atual formulação hegemônica da DENEM sobre o tema e que se expressa na prática da militante Monique, no sentido em que esta expõe publicamente uma linha que, embora se apresente como Determinação Social do Processo Saúde-Doença, o faz num enfoque que não centra o trabalho como o determinante principal, e sim o coloca em conjunto com outros fatores, tais como moradia, renda, educação, lazer, gênero, raça, etc. Concordamos que tais fatores influenciam o processo de adoecimento, mas é necessária a importante ressalva da centralidade do modo de organização da sociedade e do trabalho enquanto determinante destes fatores. Tal divergência fica explícita (mas não se restringe a esse único exemplo) no seguinte trecho de um texto produzido pela Coordenadoria de Políticas de Saúde da DENEM para o Caderno de Textos de sua Primeira Reunião de Órgãos Executivos de 2014:

“Trabalharemos, ainda, a questão do próprio conceito de saúde, rejeitando colocações simplistas, como a de que “saúde é ausência de doença” ou “saúde é um completo bem-estar biopsicossocial”. Nós iremos além entendendo que, ainda que o conceito de saúde seja algo muito subjetivo e pessoal, o processo de adoecimento da população é socialmente determinado, passa por questões como acesso, condições financeiras, educação e auto-estima; ainda, como determinantes fundamentais, desigualdades de gênero, etnia e orientação sexual; passa, inclusive, por interesses econômicos que, quando sobrepostos às reais necessidades da nossa população, como em geral se vê, são talvez os principais determinantes do processo saúde- doença.”

Isso não surge como preciosismo teórico, mas sim porque, conforme supracitado, uma prática que é balizada tendo como fim último a emancipação da classe trabalhadora, deve, necessariamente, corresponder a uma teoria que centra a saúde em relação à inserção na produção social e que contribua no avanço de consciência de classe destes trabalhadores e trabalhadores em formação – e isso se dá através de uma prática de intervenção no processo de trabalho, e não da discussão teórica descolada.

Portanto, se na concepção do trabalho enquanto fator central do adoecimento a conseqüência política é a destruição da sociedade capitalista baseada na propriedade privada dos meios de produção e na exploração da mais-valia,  na outra visão o foco da luta passa a ser a conquista de direitos (moradia, educação, saúde etc) e políticas “democráticas” na ordem capitalista; se naquela o foco principal é então organizar a classe trabalhadora para mudar radicalmente essa sociedade, nesta devemos nos mobilizar para ocupar espaços junto a Ministérios e outras instituições do Estado; se antes pautas específicas (que não as negamos) eram um trampolim para vislumbrarmos uma elaboração revolucionária, agora elas possuem um fim em si mesmas e o projeto socialista, embora teoricamente não abandonado, é deixado de lado por ser considerado pouco estratégico para o momento. Em nossa opinião, quando toma-se essa atitude, desloca-se o horizonte da luta socialista para um “capitalismo mais justo”.

Nós, do Coletivo Outros Outubros Virão, entendemos o atual momento histórico, caracterizado pelo descenso das lutas, de fragmentação da esquerda e de apatia e rejeição à forma política tradicional, como produto de um ciclo de lutas hegemonizado pela prática do Partido dos Trabalhadores (PT). Também entendemos que, nós, enquanto militantes construídos a partir de um ser social, reproduzimos práticas que são hegemônicas. Tais análises, inclusive, não são peculiaridades da nossa organização e são compartilhadas por outras forças que constroem a DENEM.

Nossa principal tarefa, superação do período anterior, perpassa por criticarmos tal período, incluída também uma dura autocrítica: percebermos e criticarmos o que carregamos em nós do período anterior! Logo, nosso objetivo ao discutir – e criticar – práticas do ciclo anterior, tais como personalismo e tarefismo, é fazer esse debate tendo em vista que podemos  intervir na maneira como nossa militância se dá, orientando-a no sentido de, a partir da teoria, entendermos os limites das formas de militância predominantes e não somente reproduzi-las.

Assim, pontuamos que na prática da DENEM, tais vícios também se reproduzem, quando muitas das nossas discussões e decisões, enquanto militantes da executiva, têm um foco que reduz a política por trás dos nomes aos nomes somente. A isso denominamos personalismo, e o combatemos na prática quando a defesa de um nome em detrimento de outro se reduz a referência que a pessoa tem ao ocupar determinado cargo. Quando pontuamos que os militantes não estão entendendo a divergência de fundo por trás das defesas de nomes, não ousamos fazer uma crítica que centra o estudo teórico como finalidade única, mas apontamos ali a limitação de não ter um estudo que propicie um entendimento da militância prática, e a tal vício denominamos tarefismo.

A repercussão dessas críticas políticas como críticas à militante em específico é mais uma manifestação do mesmo processo. Não pretendemos a partir do nosso debate desqualificar uma militante enquanto pessoa, mas sim qualificar a forma com a qual tem se debatido este ou outro militante na DENEM, e isso inclui não reduzir a crítica política ao polo do pessoal, mesmo entendendo que político-pessoal não estejam dissociados. As críticas políticas não são debates que se restringem aos espaços informais, tais como o facebook, ou ainda ao plano do desabafo ou da fofoca. São temas que devem ser debatidos como forma de acúmulo que propicia o avanço da executiva e qualifica a sua intervenção, para além de meramente servirem como desabafos individualistas. Assim, não queremos nos omitir ou ocultar que existam divergências entre nossas formas de atuação, mas queremos discuti-las porque entendemos que só assim é possível dar saltos de qualidade em relação ao que a DENEM tem a propiciar enquanto executiva que é construída por todos nós.

Nossa política não é a desqualificação pessoal, até porque a desqualificação pessoal nada mais é do que a mais pura expressão de uma política centrada em narrativas individuais, e, portanto, em personalismo, o que veementemente contrasta com a nossa defesa de um protagonismo histórico enquanto classe trabalhadora organizada, que não se dá na individualidade autocentrada. Rejeitamos a menção que possamos ter ofendido a honra de tal militante, porque, em última instância, não é esse o alvo de nossa crítica política e não é algo que tenha ocorrido.

Assim, nessa conjuntura do período histórico de superação do período anterior, para forjar o novo, é fundamental o debate das divergências políticas entre as forças de esquerda. Nesse momento histórico atitudes como as dos camaradas que expressaram nas redes sociais ataques ao coletivo de forma superficial, não contribuem para nossas tarefas enquanto esquerda. Desqualificar os outros grupos políticos sem a preocupação de aprofundar e qualificar as divergências cumpre a função de autoconstrução, e não a de contribuir para os desafios da classe trabalhadora hoje. Consideramos também que deixar de colocar as divergências na ocasião do debate para acusar a posição que outrora defendera é extremamente oportunista, não contribuindo para qualificação de nossas discordâncias. Essas atitudes, em última instância,  despolitizam o debate e transformam divergências políticas em pessoais, afastando pessoas da militância, ao legitimar perante o senso comum a política antipartidária e antiorganizacional.

Esperamos dos outros agentes que constroem a executiva, organizados em grupos políticos ou não, responsabilidade para o debate da divergência para além da internet e da troca de ataques, responsabilidade que acarreta a exposição formal de divergências e o avanço no debate que faz avançar a DENEM. A partir disso esperamos construir a tão falada unidade de ação enquanto esquerda. Para além da pretensão da construção de uma unidade forçada e consensual na aparência, por uma ação unitária que entende e converge estrategicamente de forma prática e teórica justamente porque debate prática e teoria.

Por fim, àqueles que nos acusam de somente estudar, “parasitar” na executiva e não organizar nenhuma luta de fato, é nosso dever refutar essas acusações infundadas e reafirmar que críticas vazias como essas não contribuem para o avanço da organização dos estudantes. O coletivo OOV se propõe a intervir na realidade de forma organizada e coletiva, além de defender a priorização da formação política, entendendo-a não só como teórica (leitura dos clássicos), mas também prática. Nesse sentido, alguns dos instrumentos que podem potencializar as lutas dos estudantes são os CA’s, DCE’s e Executivas de curso. Por isso, construímos a DENEM na Sul 1 e na  Sul 2 por anos, inclusive enquanto sede; tivemos grande participação na luta dos estudantes de medicina contra a EBSERH (UFPR, FURG e UFSM); construímos greves importantes e contribuímos com formulações  importantes para a executiva, como no caso do Mais Médicos e das Escolas Pagas – só para falar da medicina. Portanto, gostaríamos de finalizar essa nota dizendo não estamos na executiva para mera autoconstrução, mas pretendemos realizar um debate honesto e ajudar na construção de uma DENEM que realmente potencialize a luta dos estudantes.

E que sigamos firmes na árdua tarefa de construção de uma sociedade livre da exploração do homem pelo homem.

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