Dia Internacional da Mulher: Dia de Luta por Direitos!

«A classe operária necessita, para a realização de sua missão social, de mulheres que não sejam escravas. Não quer mulheres sem personalidade, no matrimônio e no seio da família, nem mulheres que possuam as virtudes femininas – passividade e submissão. Necessita de companheiras com uma individualidade capaz de protestar contra toda servidão, que possam ser consideradas como um membro ativo, em pleno exercício de seus direitos, e, consequentemente, que sirvam à coletividade e à sua classe.»

Alexandra Kollontai

A Origem do Movimento Feminista

Durante a Revolução Francesa, os ideais feministas aparecem ainda de forma primitiva, visto que a maioria das mulheres realizava trabalhos domésticos e apenas uma minoria reivindicava direitos civis e participação política, mesmo entre os revolucionários a luta por direitos iguais não era bem aceita, devido a esse cenário houveram poucas conquistas para as mulheres e menos ainda para as mulheres pobres.   Featured image

É apenas no século XIX, quando o sistema capitalista necessita da mão de obra feminina e as mulheres se inserem massivamente no mercado de trabalho, que um forte movimento pelos direitos dessas se inicia.  Surge então o Feminismo Proletário que reivindicava a igualdade de salários entre homens e mulheres e questionava a substituição da força de trabalho feminina por masculina para redução de custos, visto que elas eram piores remuneradas.

Os sindicatos até então, majoritariamente masculinos, não sabiam como reagir a enorme onda de mulheres assumindo postos antes ocupados apenas por homens e reivindicavam a saída das mulheres do processo produtivo com o recebimento de um salário família. Porém outras vertentes do socialismo alemão defendiam que a entrada da mulher no mercado de trabalho era inevitável e que a luta sindical por maiores salários deveria se pautar na igualdade salarial entre homens e mulheres, aproximando dessa forma a luta sindical operária do movimento feminista.

No dia 8 Março de 1857 em Nova Iorque um dos primeiros movimentos feministas operários se inicia quando operárias têxteis param por semanas a linha de produção e são brutalmente reprimidas pela força policial. Para relembrar essa data em 1907, nos EUA as operárias e os socialistas convocam uma grande “Marcha da Fome” que reivindicava redução da jornada, melhores salários e condições de trabalho, e novamente a força policial  violentamente cumpre seu papel de repressão. A partir de então, o mês de março começa a ser reconhecido como um mês da luta das mulheres trabalhadoras.

É apenas em 1910, durante o II Congresso Internacional das Mulheres Socialistas, que o dia 8 de Março se torna o dia internacional da mulher. As socialistas viam essa institucionalização necessária para fortalecer reivindicações fundamentais como o voto feminino e a redução da jornada de trabalho, visto que manifestações desse caráter cresciam cada vez mais pelos EUA e Europa.

Na Rússia, após a Revolução de 1917, houve uma maior organização do movimento feminista e esse podia ser dividido em “Feminismo Burguês e Operário”. O primeiro consistia em uma militância voltada para educação e carreira feminina, defendendo a entrada das mulheres na universidade (Escolas de Medicina e em sua autonomia para controlar suas propriedades e filhos). Já o Feminismo proletário nem sequer cogitava tais assuntos, pois sua realidade estava longe do ingresso na universidade, a militância se pautava em melhorar as condições de trabalho da mulher e em seu ambiente familiar.

Lenin acreditava que o trabalho doméstico banal esmagava e degradava a mulher, tornando-a improdutiva. Segundo ele para que a verdadeira emancipação feminina ocorresse, o trabalho doméstico deveria ser socializado.  O Partido Bolchevique idealizou que essa medida deveria ocorrer por meio de restaurantes, creches e lavanderias populares.

Alexandra Kollontai como Comissária de Saúde do governo Soviético, foi a primeira mulher no mundo a ocupar um cargo de ministério. Ela foi uma das idealizadoras do “Código Completo do Casamento, da Família e da Tutela”, tornando a Rússia o primeiro país a legalizar o divórcio para ambas as partes, sem restrições.

Tais mudanças tinham o objetivo de elevar a mulher como indivíduo independente do  marido, capaz de atuar politica e culturalmente, lado a lado com os homens, em uma sociedade pós revolução socialista.

Foi também a URSS a pioneira na legalização do aborto no ano de 1920. Realizado por clínicas do Estado, a técnica era tão segura que, em uma das clínicas de Moscou, de 175 mil abortos realizados, somente 9 resultavam em morte.

No período do Stalinismo, muitos direitos conquistados pelos bolcheviques foram retirados, bem como o direito ao divórcio, o casamento civil, reconhecimento da união estável e a legalização do aborto, tais medidas se deram de forma repressiva. Na URSS, o aborto se tornou ilegal em 1936, tal experiência obrigou as mulheres a procurarem medidas não sanitárias para sua realização e o fez ressurgir como um problema de saúde pública.

Com a ascensão do Stalinismo em meio a Guerra Fria, diversos países capitalistas proibiram as comemorações do dia da mulher, devido seu caráter subversivo e revolucionário. É só na década de 60, com a revolução cultural e a volta da discussão sobre liberdade sexual, que o movimento das mulheres ressurge, desta vez, desprovido do caráter revolucionário que o originou. Em 1975, a ONU refunda o 8 de março como Dia Internacional da Mulher.

O Estado e a Igualdade de Direitos

E há quem diga que as mulheres, no século XXI, alcançaram a tão sonhada igualdade de direitos com relação aos homens. Contudo, observando dados sobre renda, emprego e violência, percebemos que não estamos “quase lá”.

Em 2012, no Brasil, enquanto os homens somam 58,7% dos trabalhadores com carteira assinada, apenas 41,3% das mulheres estão na mesma situação. Os homens continuam recebendo salários maiores, em média R$ 1.890,00 mensais, enquanto o salário das mulheres tem uma média de R$ 1.392,00.

A despeito da criação da Lei Maria da Penha, que busca uma punição mais rigorosa para os crimes cometidos contra a mulher, das mais de 100 mil vítimas anuais de Violência doméstica, Sexual e outras violências, 65,4% são mulheres e apenas 34,6% homens. Mesmo assim, a Lei Maria da Penha, criada em 2006, reduziu em apenas 10% a taxa de feminicídio no país, e as delegacias da mulher apresentam graves problemas tanto no acolhimento quanto na investigação de denúncias e na punição dos agressores, fato que demonstra a fragilidade das políticas de proteção à mulher vítima de violência.

O aborto, ainda criminalizado no Brasil, exceto em casos de risco à vida materna, estupro e anencefalia do feto, é realizado clandestinamente por milhares de mulheres todos os anos. Em situação de vulnerabilidade social, essas mulheres procuram dar fim à sua gravidez indesejada de inúmeras formas, muitas delas sem  as mínimas condições de higiene e segurança (principalmente dentre as mulheres trabalhadoras, que não tem condições de pagar por procedimentos mais seguros), resultando em  aproximadamente 70 mil mortes anuais por complicações, tornado-se a 5ª maior causa de mortalidade materna no país.

Firmes na luta contra a opressão de gênero e contra o capital

«Se a libertação da mulher é impensável sem o comunismo,

o comunismo é também impensável sem a liberação da mulher!»

Inessa Armand – Revolucionária Bolchevique

Professoras, enfermeiras, sapateiras, bancárias, médicas, metalúrgicas, estudantes… Somos milhares de mulheres que todos os dias sofrem na pele as contradições da luta de classes e não se deixam intimidar pelas ameaças constantes de patrões e governantes.

Featured imageEstamos cientes de que a luta contra o machismo, bem como a luta contra o racismo, homofobia, etc, não se limita ao grupo restrito daqueles que sofrem diariamente com essas opressões. É, para além disso, a luta de toda uma classe trabalhadora, que se esforça para sobreviver frente a luta de classes e a imensa desigualdade social que explora muitos e alimenta poucos.

Pois é dando às mulheres salários inferiores ao dos homens que o empresário aumenta o seu lucro, é impedindo a liberdade reprodutiva que o Estado obriga as mulheres a aceitar qualquer subemprego para alimentar seus filhos, é objetificando os nossos corpos que a indústria da cosmetologia consegue implantar o seu padrão de beleza, vendendo milhões de produtos diariamente.

Tampouco podemos crer que a luta por uma sociedade mais justa se dará sem que combatam arduamente essas opressões. Nós, mulheres, somos bilhões de trabalhadoras no mundo todo, e também somos negras, lésbicas, bissexuais, transexuais, e sem nós, não há força suficiente para superar uma sociedade dividida em classes.

É tarefa de todo aquele que se entende enquanto comunista, lutar pelo fim dessas opressões dentro da própria classe, para a formação de uma consciência de classe, sólida, única e imbatível, capaz de romper definitivamente os grilhões que prendem o proletariado à servidão capitalista.

O 8 de março é, acima de tudo, uma data classista, uma data para ser recordada todos os dias, uma data de lutas, insurgências, revoltas e revoluções. Março é um mês pra lembrar que não somos objetos, que somos mulheres guerreiras, militantes, dirigentes, camaradas, e não nos deixaremos calar por aqueles que lucram com a nossa opressão, jamais!

Referências:

A Nova Mulher e a Moral Sexual – Alexandra Kollontai

O Comunismo e a Família – Alexandra Kollontai

Mulher, Estado e Revolução – Wendy Goldman

A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado – Friedrich Engels

http://blogdaboitempo.com.br/2015/03/04/a-imagem-da-mulher-e-a-esquerda/

http://blog.planalto.gov.br/trabalho-com-carteira-assinada-cresceu-em-2013-aponta-ibge/

http://noticias.r7.com/saude/aborto-e-a-quinta-causa-de-mortalidade-materna-segundo-conselho-federal-medicina-21032013

http://www.esquerda.net/artigo/brasil-aborto-clandestino-%C3%A9-quinta-causa-de-morte-materna/29651

https://br.mulher.yahoo.com/blogs/preliminares/lei-maria-da-penha-frea-crescimento-do-feminicidio-103721556.html

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: