Sobre a conjuntura efervescente atual, que fazer?

Análise de conjuntura do coletivo Outros Outubros Virão

      Muito se tem falado nas crises ultimamente, mas afinal, o que se passa? Acreditamos que estamos prestes a adentrar uma nova crise econômica. Os países do centro do sistema capitalista, prevendo o rombo econômico gigantesco que virá aos seus empresários, não tardam em promover medidas que amenizem a crise que virá. Dessa forma, sugam as economias dos países periféricos, que ainda estão pagando a conta da última crise do capital. No Brasil a economia vai mal, e as saídas para essa crise vêm da nossa carne. Quem paga novamente é o trabalhador.

       A burguesia não perde tempo em defender seus interesses e, a fim de aumentar seus lucros novamente, lança mão de vários pacotes que vêm aí para precarizar a nossa vida e facilitar a deles. A educação enfrentou um corte de 18 bilhões de reais e há previsão de cortes ainda maiores em 20161, e isso é apenas um dos vários cortes nas verbas de fins sociais. Estudantes e professores já sentem os reflexos disso, há universidades sem verbas para funcionar, sem docentes, sem assistência estudantil, tendo como consequência a resistência: 46 universidades federais entraram em greve nesse período, além de várias greves e mobilizações nas universidades estaduais pelo país.

       Para o conjunto dos trabalhadores, vemos medidas que atacam seus direitos e suas condições de vida, em uma escala que há tempos não víamos. Medidas como o PPE (Programa de Proteção ao Emprego), que permite aos empregadores pagarem às suas categorias salários menores e inclusive abaixo dos estipulados na CLT; ou a PL 4330 que visa liberar a terceirização pra todas as atividades, o que permite contratos de trabalho piores, menos estáveis e com salários mais baixos. Além disso, o capital solta sua direita raivosa para as ruas, e esses clamam por mais ataques contra os trabalhadores, chegando ao ponto de defender a volta da ditadura militar e a perseguição aos comunistas e demais correntes políticas dos trabalhadores. Não é a toa que, depois de muito tempo, voltamos a ouvir “GREVE GERAL” como proposta de mobilização. A classe trabalhadora sente a crise na pele, na conta do mercado, na falta de emprego (taxa de desemprego maior desde 2010), na universidade que afunda e, com isso, vemos a intensificação das lutas.

    Sendo assim, percebemos então uma crise econômica, que força a classe dominante (burguesia) a explorar mais descaradamente e investir mais agressivamente contra a classe dominada (trabalhadores). Tal movimento traz como consequência uma maior resistência e luta por parte dos trabalhadores – mesmo que nesse momento ainda de forma dispersa e não coordenada. Vemos uma tendência de generalização das lutas, visto que enfrentaremos tentativas de retirada de direitos cada vez piores.

    A insatisfação com o governo petista se intensifica, e este evidencia cada vez mais o seu caráter: um aliado da burguesia. Vivenciamos o fim de um ciclo, que passa pelas lutas intensas dos anos 80, com o PT despontando como a ”estrela guia” do movimento dos trabalhadores e que chega, nesse momento, com a aliança com a classe dominante, tendo como principal estratégia a eleição e administração do Estado enquanto a classe trabalhadora sofre cada vez mais com os ataques constantes do capital. Com o fim desse ciclo de lutas, o chamado “partido dos trabalhadores” joga abertamente em favor da burguesia durante a crise, defendendo o PPE que baixa o salário do trabalhador, corta as já escassas verbas da saúde e da educação, e recebe nota de apoio dos industriais para continuar no poder. Como legado desse ciclo, temos em nosso momento histórico uma desmobilização e desorganização geral das lutas.

Qual o papel do movimento estudantil nesse cenário?

       Na Universidade observamos, também, as investidas do capital. Desde os empréstimos da dívida externa da década de 60, vemos os representantes da burguesia (FMI, Banco Mundial e os governos) atentando contra a Universidade pública em prol dos grandes capitais. Isso se configura como um projeto para o ensino superior brasileiro, de forma que a Universidade deveria (de acordo com esse projeto) ser já há muito tempo privada, sucateada e com o objetivo de somente ensinar técnicas que possibilitem a capacitação da força de trabalho destinada aos postos de trabalho que são demandados pelo capital. Tais postos devem ser coerentes com o lugar que o Brasil ocupa na cadeia produtiva mundial, a de um país que se encontra na periferia do capital, a grosso modo, tendo como principal função a produção de commodities, e de uma indústria que apenas monta os componentes desenvolvidos e produzidos em outros centros capitalistas. Um país com tais características não necessitaria, portanto, de uma educação de qualidade e muito menos uma educação crítica.

     Na contramão desse projeto encontramos os estudantes (trabalhadores em formação) e os trabalhadores da educação superior, que resistiram ao longo das décadas a tal projeto de Universidade precarizada e alcançaram diversos avanços, além de barrar diversas reformas que representavam os interesses da outra classe, como foi o caso da não implementação de mensalidade nas Universidades públicas.

     Avaliamos que é necessário continuar resistindo ao projeto da burguesia para a Universidade, em especial nesse momento onde os cortes atuais representam uma nova investida do capital pelo avanço desse projeto. Dessa forma, avaliamos que este é o momento de reorganizar as bases e os locais de estudo, buscando uma generalização das lutas nas universidades para o próximo período. Nessa conjuntura de grandes cortes, grandes ataques dentro e fora das universidades, a organização do movimento estudantil ainda é incipiente. Apesar dessa tendência a termos mais lutas, notamos que ainda não temos condições enquanto movimento de sustentar uma luta nacional ampla e combativa. Ainda há muitos locais desmobilizados e presenciamos entidades nacionais, como a UNE, ao lado do governo e totalmente descoladas do movimento. Nossa tarefa é crescer a luta, fomentar o movimento combativo e a formação política, contribuindo com esse novo ciclo de lutas que se abre e buscando trazer a discussão sobre o movimento estudantil nacional entre os estudantes, para que tal discussão não seja pautada por meio apenas das entidades.

     Frente a essa conjuntura efervescente e à insatisfação generalizada, não acreditamos que se colocar à frente das massas seja o suficiente para que os trabalhadores compreendam um projeto de classe e entrem em uma proposta combativa de movimento. Acreditamos que, nesse momento, não podemos dar um passo maior que nossas pernas. Acreditamos que o momento atual do movimento estudantil ainda não permite termos movimentação nacional coordenada, atuante e influente de imediato. Primeiramente devemos nos voltar para nossas bases, crescer o movimento nos nossos locais de estudos, realizar o debate nacional, começar esboços de articulações entre as universidades, formar politicamente esses locais, para que possamos ter concretamente uma organização nacional no futuro, que consiga concretamente chamar e movimentar nacionalmente os estudantes.

       Isso não significa, contudo, que devamos permanecer imóveis esperando que o movimento nacional se desenvolva por si só, assumindo posturas sectárias e isoladas. Ao dizer que o movimento estudantil hoje não tem condições de uma organização a nível nacional com legitimidade nas bases, inserida de fato e organizada, não estamos apenas nos conformando com a realidade do nosso momento histórico. Pelo contrário, acreditamos que é tarefa das organizações e coletivos do movimento estudantil pautarem essa discussão junto a suas bases e não apenas negá-la, como princípio. Os passos iniciais em relação ao movimento nacional devem começar desde já. Um exemplo disso foi nossa atuação no CNGE (Comando Nacional de Greve Estudantil) de 2012. O comando de greve estudantil surgiu pela primeira vez em 2012 como uma demanda das várias universidades que estavam em greve. Ele conseguiu elaborar alguns dias comuns de lutas nas várias localidades, o que acreditamos que foi uma experiência ainda incipiente, mas positiva. Percebe-se que tal experiência surge como uma demanda real do movimento, e como fruto das universidades em greve, o que se mostra também como uma experiência bem diferente das demais.

      Agora em 2015, devido à greve nas universidades federais em todo o Brasil, esse debate surge novamente, e os estudantes se reuniram em uma plenária em Brasília acerca do que fazer. Lá, nós defendemos que o comando deveria ter como primeiro foco uma discussão ampla sobre sua necessidade e seu funcionamento nas universidades em greve, e que isso poderia ser uma estratégia para preparar e fortalecer o comando nas bases, uma estratégia para criar o comando a partir das bases. A contraposição seria de já criar o comando e começar a fazer atos nacionais em Brasília. Novamente, criar de imediato um comando nacional com atividades em Brasília é um passo um pouco maior que a perna. De nada adianta ter um comando se as próprias universidades em greve não têm forças suficientes para compô-lo. De nada adianta ter um comando que surja de forma alienígena nas universidades em greve, querendo representá-las (essas universidades não aderirão). De nada adianta pautar uma ação que está muito à frente do que o movimento pode bancar.

     Qual nossa saída então? Pautar o espectro e a força de ação do CNGE a partir do que o movimento estudantil de hoje consegue suportar, mas já no intuito de esboçar e começar essa possível articulação nacional. Pautando a discussão e criação nas bases, teríamos o termômetro da possibilidade de fato de suportar as greves locais e mais um comando nacional ativo e inserido, além de que já começamos o debate sobre a necessidade de se articular para mobilizações e generalizações futuras. Assim, preparamos os passos para a nacionalização das lutas e pautamos sua criação a partir das bases.

        Outro evento ocorrido durante a plenária de discussão do CNGE foi a aprovação do ato do dia 18 em SP, promovido pelo espaço “unidade de ação” que congrega forças como PSTU, PCB e setores do PSOL. A nota da ANEL sobre o tema, cita o Outubros e dá a entender que construiremos ativamente tal proposta. Não somos contrários à elaboração de tal ato, que visa se colocar como uma alternativa para os trabalhadores frente às opções partidárias PTxPSDBxPMDB, um terceiro campo. Entretanto, acreditamos que essa não seja a melhor estratégia para o momento. Acreditamos que, mais do que colocar nossas forças em um ato de cunho nacional que se coloque à frente da classe, como uma opção já para dirigir as massas, devemos focar em reconstruir as bases desse movimento. Acreditamos que a melhor estratégia, nesse momento, é focar nas organizações dos movimentos nas universidades, e não investir em atos nacionais com o caráter apresentado, pois estes tendem a ser descolados do contexto da classe trabalhadora como um todo e inefetivos nesse sentido.

     Estamos vivendo as repercussões da crise econômica na classe trabalhadora. Essa classe começa a reagir aos ataques, mas ainda não temos um partido que esteja no dia a dia da classe como um todo e consiga coordenar, impulsionar e canalizar essas lutas para uma real transformação. Configura-se então uma tendência a mobilizações mais gerais contra os ataques da burguesia, mas de forma ainda dispersa e desorganizada. Nós, do movimento estudantil, devemos então investir nossas forças na reorganização de um movimento estudantil combativo, independente do governo e de patrões, pautado na formação política e na luta. Devemos reorganizar as bases estudantis e pautar um movimento nacional que vá para além das entidades, com uma discussão inserida de fato no dia-a-dia dos estudantes, esse ainda deve ser o nosso foco nesse período. Entretanto, não acreditamos que esse trabalho nas bases deva ser tratado da mesma forma como “sempre foi”, devido a essa tendência a generalização das lutas e a necessidade cada vez mais presente de movimentações nacionais. Devemos, desde já, trabalhar na ótica de já ir construindo os passos para uma futura generalização das lutas.

“É agora

É o fim do último ato
É o ultimato da vida velha
É a ascensão da queda
É a quebra do monopólio
do bloco
do calço
do motor da história
Que se apresenta
ao lado
do estacionamento
do mercado

Estamos em queda livre
da ascensão
Nossas mãos estão atadas
Nossas línguas foram cortadas
Nossa boca amordaçada
pela ilusão da palavra
Esta, foi reservada à negociação

Estamos em franca recessão
e as massas sonolentas
só acordarão atordoadas
se lançarão nas chamas
apagadas de razão

É a regressão do progresso…
É a ilusão do Congresso
A falsidade da negação do Projeto

É o dejeto do jeito antigo
reinscrito
irreconhecível
pros seu próprios filhos

É a progressão do retrocesso
É o flash back
É o dèjá vu
É o jamais vu
É o retorno do esgoto
O esgotamento do progresso

É a aflição
É o tédio
É o aperto no plexo
O sufoco da pleura
É a falta de ar

É o tempo comprimido
Prescrito e prescrevido
É asegunda vinda do facismo

É Mussolini
É Churchill
É Hitler
É Thatcher, é tátil
É tática

É forma deformada
É liberdade controlada
É chacina negociada
É a volta da fraqueza
da pobreza escoltada
É salve bandeira
É a brincadeira
de morte lenta

Progredir não vale à pena

Não!
Crescer não interessa
Agora
Nesta hora
Uma revolução
obstrui as pautas velhas
de negociação”

(A esfinge – Wil Melo)

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