Autocrítica sobre atitudes machistas e nossa política sobre opressão de gênero

Diante de diversas denúncias contra atitudes machistas por parte de militantes do coletivo Outros Outubros Virão ocorridos na local de Santa Maria – RS, lançamos esta nota como um processo de autocrítica quanto à reprodução do machismo dentro e fora do núcleo. Após inúmeros debates, deliberações internas e a intervenção da Comissão Nacional de Gênero, encaminhamos de construir um documento que explicitasse nosso histórico sobre a questāo de gênero dentro do coletivo, nossa linha política e autocrítica do processo, além de procurarmos ativamente as vítimas do processo – preservando suas identidades – para acolhimento e abertura de diálogo, a fim de entendermos estes movimentos e avançarmos tanto prática quanto teoricamente na política de combate às opressões.

SEM FEMINISMO NÃO HÁ COMUNISMO!

HISTÓRICO DO DEBATE DE GÊNERO NO COLETIVO E O PROJETO DEMOCRÁTICO E POPULAR

 O coletivo Outros Outubros Virão surge no final de 2008, após o Congresso de Estudantes da UFPR, sob a perspectiva de organização no Movimento Estudantil aliado à necessidade de formulação e apropriação teórica do Marxismo, a fim de entendermos as finalidades da militância nessa sociedade. Por um grande período de tempo nos preocupamos apenas em analisar a luta de classes sob uma única perspectiva, acreditando que a exploração da força de trabalho era um elemento suficiente para entendermos a classe trabalhadora, negando portanto que a subjugação social da mulher é fundamental para a perpetuação do Sistema Capitalista.

Ao observarmos a luta de classes no Brasil hoje, nos deparamos com um projeto hegemônico conduzido pela grande maioria da Esquerda, o Projeto Democrático Popular (PDP). Tal projeto ganha força no contexto histórico da Ditadura Militar, momento esse em que uma grande parcela da classe trabalhadora se volta para a luta por Democracia e Justiça Social. Ao longo desse processo de lutas, a saída vislumbrada por essa corrente Social-Democrata para garantia dos direitos sociais é a gerência do Estado Capitalista, a fim de conciliar as necessidades dos trabalhadores às necessidades da Burguesia, abandonando por completo a via revolucionária, ou seja, perpetuando um sistema de exploração-opressão.

Para além disso, o Campo Popular afasta-se do próprio conceito de classe trabalhadora ao abandonar esse termo da ordem do dia e defender uma luta democrática e popular, organizando a classe em diversos setores e movimentos sociais pautados em especificidades e “classes” populares, definido pelos próprios teóricos desse projeto como “pessoas capazes de dar consciência aos seus interesses, desejos e expectativas, por pessoas que tem a aprender e que também tem a ensinar”¹. Dessa forma, diluindo a classe trabalhadora em diversos movimentos sociais (negros, mulheres, LGBT, periféricos), fragmenta-se a luta de tal forma que não nos reconhecemos mais enquanto trabalhadores, e assim permanecemos fechados em nossas próprias individualidades sem identificar e combater o real cerne de nossa exploração, o Capital.

Por negar o Projeto Democrático Popular, entendendo que essa estratégia fortalece os interesses da Burguesia, fragmenta e apassiva a classe trabalhadora, e que o próprio Movimento Feminista é permeado majoritariamente por essa linha política, nosso coletivo negou em um primeiro momento a luta feminista, cometendo um grave equívoco. Porém ao nos debruçarmos sobre a História do Feminismo, da Revolução Russa e das análises teóricas de Engels, Kollontai, Saffiotti, entre outros teóricos marxistas, percebemos que o Feminismo Classista é revolucionário e essencial para o surgimento de outra sociedade em que nem a exploração e nem a opressão existam.

Nesse processo de autocrítica, cria-se no início de 2015, a Comissão Nacional de Gênero, composta por mulheres e homens, heterossexuais e homossexuais, brancas/brancos e negras/negros, entendendo que esse debate deve permear e ser apropriado por todos e todas. Seu principal objetivo era o de construir coletivamente com as diversas locais do coletivo uma linha política de gênero a fim de compreendermos teoricamente a importância desse debate e avançar interna e externamente com o machismo reproduzido por sermos seres de nosso tempo. Sendo assim, tanto no Seminário Nacional (SN) – maior instância deliberativa do coletivo – de 2015, quanto no de 2017, nos debruçamos sobre as questões de opressão e gênero, conseguindo afinar minimamente nosso debate e atuação.

Referências Bibliográficas:
  1. Educação Popular em Busca de Alternativas; O processo de constituição do CDP – Conceição Paludo, 2001.
  2. Democracia de Cooptação e o apassivamento da classe trabalhadora – Mauro Iasi.

O FEMINISMO CLASSISTA

A história do Feminismo Classista tem seu início em 8 de março de 1857 quando as operárias de uma fábrica têxtil de Nova Iorque deflagram greve por melhores condições de trabalho, pela diminuição de uma carga horária degradante de 12 horas diárias e aumento de seus míseros salários. Anos mais tarde, em 1909, outras 30 mil operárias têxteis declaram greve por pautas com o mesmo caráter e apesar da dura repressão policial, pela primeira vez o movimento operário feminino recebe apoio e solidariedade de outros setores sociais como os estudantes, sufragistas e socialistas.

Em 1910, um marco para o Movimento Feminista ocorre durante o Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, o dia 8 de Março é sancionado como o Dia Internacional da Mulher a fim de ser um dia para lembrarmos da luta das mulheres e homenagear aquelas que lutam pelo fim da exploração na sociedade capitalista¹. Infelizmente hoje o 8 de março é, muitas vezes, um dia para reafirmação do papel social de gênero da mulher nessa sociedade, no qual exalta-se seu caráter feminino, maternal, dócil e servil; portanto é uma tarefa das feministas classistas relembrar qual é o verdadeiro caráter dessa data e problematizar a cooptação que essa data revolucionária sofreu ao longo da consolidação do capitalismo internacional.

international_womens_day_1917

O feminismo classista que reivindicamos enquanto coletivo, baseia-se na análise social e antropológica do surgimento da propriedade privada e da opressão da mulher. Após o surgimento de uma sociedade baseada na propriedade privada e na exploração de classe, ocorreram mudanças profundas nas relações sociais, anteriormente balizadas pelo coletivismo e pela igualdade. Isso só foi possível devido à produção de excedente, o que permitiu que uma parcela da população nāo trabalhasse, mas sim controlasse a produção. A partir desse momento, a manutenção dessa classe social torna-se intrinsecamente relacionada à propriedade privada dos meios de produção, e para tal, o mecanismo de herança se fez necessário e juntamente a ele, a união monogâmica².

A partir desse momento, diferentemente dos períodos anteriores, surge a necessidade de saber quem é a prole do homem, o que não ocorria nas sociedades matriarcais anteriores, em que a prole era definida pela linhagem materna. Sendo assim, o mecanismo de garantia dessa linhagem, torna-se a virgindade da mulher, pois o filho  primogênito, era a única forma de garantir isso, tornando-se portanto o herdeiro dessa família. Inicia-se, assim, o processo de isolamento da mulher ao lar, sua subjugação à casa, aos filhos e ao marido; heranças dessa nova ordem social caracterizada pelo patriarcado e misoginia, que foram sendo consolidadas e adaptadas ao longo do desenvolvimento dos diversos sistemas econômicos até chegarmos ao Capitalismo que transfigura a mulher em um objeto, um artefato para satisfação sexual e psicológica do sexo masculino que garante a reprodução da linhagem da prole e a manutenção da vida por meio do trabalho doméstico.

Para os Marxistas, a emancipação das mulheres não pode realizar-se sem a destruição do sistema capitalista vigente, pois se insere na história da luta de classes, sendo assim, tanto homens quanto mulheres terão que se unir para mudar as relações estruturais dessa sociedade. Os homens comunistas entendendo que as mulheres pertencem ao grupo mais explorado da classe trabalhadora, não só pela dupla jornada de trabalho, pelos assédios morais e sexuais que essas sofrem no trabalho diariamente, mas também por se submeterem a piores condições de emprego (menores salários, maior carga horária e flexibilização das leis trabalhistas), devem se colocar ao lado de suas camaradas na luta por esta emancipação política humana, entendendo as pautas da mulher trabalhadora como pautas da classe como um todo, e atuar de forma crítica em relação à opressão que se dá dentro da própria classe trabalhadora.

“Parafraseando Marx, sustentamos que nāo se pode libertar quem também oprime. Porque não há possibilidade de que a classe (trabalhadora) que é em si revolucionária pela posição que ocupa nas relações de produção possa erigir-se na direção revolucionária do conjunto do povo oprimido, sem considerar também que existe a opressão em seu interior; que milhões de mulheres trabalhadoras e do povo pobre sofrem a humilhação, a submissão e o desprezo dos membros masculinos da sua classe.

Por que nós, os revolucionários, consideramos que cada vez que uma mulher é abusada, golpeada, humilhada, considerada um objeto, discriminada, submetida; a classe dominante se perpetua  um pouco mais no poder. E a classe trabalhadora, por outro lado, se enfraquece. Porque essa mulher perderá a confiança em si mesma e em suas próprias forças.  Atemorizada, passará a crer que a realidade não é passível de mudança e que é melhor submeter-se a opressão do que enfrentá-la e por sua vida em risco.

A classe trabalhadora, por outro lado, se enfraquece, também, porque esse homem que golpeou sua companheira, que a humilhou, que a considerou sua propriedade, está mais distante que antes de transformar-se num trabalhador consciente de suas algemas, está um pouco mais longe de reconhecer que, na luta para romper seus grilhões, deve propor libertar toda a humanidade de sua cadeia e contar com todos os oprimidos como seus aliados.³

Referências Bibliográficas:
  1. Andrea D’Atri, Pão e Rosas: Identidade de gênero e antagonismo de classe no capitalismo. Edições ISKRA – São Paulo, 2017.
  2. A Origem da da Família da Propriedade Privada e do Estado – Friedrich Engels, 1820.
  3. Andrea D’Atri, Marxismo e Feminismo: 40 anos de controvérsias. Lutas Sociais, São Paulo, n.27, p.144-158, 2011.

CULTURA DO ESTUPRO – A IDEOLOGIA DOMINANTE E A SUBJUGAÇÃO DA MULHER

Se voltássemos no tempo para analisar a origem da propriedade privada e da opressão de gênero, poderíamos observar a intrínseca relação entre o surgimento da monogamia e da cultura do estupro.

A monogamia nasceu da concentração de grandes riquezas nas mesmas mãos – as de um homem – e do desejo de transmitir essas riquezas, por herança, aos filhos deste homem, excluídos os filhos de qualquer outro. Para isso era necessária a monogamia da mulher, mas não a do homem; tanto assim que a monogamia daquela não constituiu o menor empecilho à poligamia, oculta ou descarada, deste¹”

Os laços matrimoniais de então, tinham como único objetivo a transmissão da herança, logo, a consensualidade não era um critério para a existência de tais uniões, já que a mulher é desprovida de seu caráter humano, sendo “convertida em servidora, em escrava da luxúria do homem, em simples instrumento de reprodução¹”.

Contudo, não é somente a mulher-esposa que sofre dessa alienação. A escravidão antecede o surgimento da monogamia, e transmite seu caráter objetificante à família do proprietário. Etimologicamente, a origem da palavra Família vem de Famulus, que quer dizer escravo doméstico, sendo Família, o conjunto dos escravos pertencentes a um mesmo homem.

“A existência da escravidão junto à monogamia, a presença de jovens e belas cativas que pertencem, de corpo e alma, ao homem, é o que imprime desde a origem um caráter específico à monogamia que é monogamia só para a mulher, e não para o homem. E, na atualidade, conserva-se esse caráter.¹”

Desta forma, tanto as relações sexuais dentro do matrimônio, como as relações sexuais mantidas com escravas, não eram consensuais. Na realidade, nunca se tratou de sexo, mas sim de ESTUPRO. Não foi de bom grado que as mulheres aceitaram o papel então relegado a elas, e é com extrema violência que a mulher é subjugada pelo homem para adequar-se ao seu papel de propriedade, sendo toda e qualquer resistência oferecida por elas destruída e aniquilada. A violência de gênero ganha então um caráter sistemático e legítimo, que inclusive pode ser observado com riqueza de detalhes durante o período da Inquisição.

Através dos séculos, a opressão de gênero foi se transformando e sendo adaptada a cada modelo de sociedade existente, sempre com o mesmo objetivo: Manter a mulher subjugada para proveito e melhor dominação das classes dominantes sobre as classes dominadas. Não por acaso, o capitalismo “adotou” a opressão de gênero de maneira extremamente lucrativa: Usar da força de trabalho feminina para aumentar seus lucros, aproveitando a submissão desse gênero, moldada por milênios de violência e “domesticação”.

Ao contrário do que é defendido pela Psiquiatria, de que o estuprador é portador de algum distúrbio mental, ou do que é pautado por algumas correntes do feminismo radical, de que o estupro é uma forma biologicamente natural dos homens se relacionarem com as mulheres, entendemos que tal ação não provém de uma origem genética e natural dos homens, tão pouco de uma doença psiquiátrica, mas de uma formação social inerente a sociedade dividida em classes de proprietários e não proprietários.

Essa formação social não atinge indivíduos específicos, mas permeia inúmeras relações sociais, estando presente de diversas formas em nosso cotidiano, independente de qual seja nosso sexo, gênero, raça ou classe.

De acordo com Marx: “As ideias dominantes numa época nunca passaram das ideias da classe dominante”. Mas de que maneira esta frase nos ajuda a entender a cultura do estupro? Algo que devemos ter em mente aos discutirmos opressões, é que elas são instrumentos utilizados pela classe dominante para submeter as classes dominadas à sua vontade. Logo, se nós, classe trabalhadora (classe dominada no sistema capitalista), desejamos acabar com a nossa exploração, não deveríamos então repudiar toda e qualquer reprodução destas opressões?

Infelizmente, a realidade não é tão simples assim. As classes dominantes impõem suas ideias a todo o conjunto da sociedade por meio de seus instrumentos de propagação ideológica: educação, ciência, cultura, mídia, religião, família… E desta forma, a realidade de uma classe passa a ser uma realidade universal e incontestável. Por um longo período da nossa história, a opressão de gênero foi legitimada e alimentada, e tornou-se cada vez mais “natural”. A própria ciência já serviu (e ainda serve) para legitimar e justificar atitudes machistas e papéis pré-determinados de gênero, como a classificação da homossexualidade como uma parafilia (distúrbio sexual), que só deixou de existir na década de 90, e a transexualidade, que ainda hoje é patologizada no DSM V como disforia de gênero.

A cultura do estupro é a banalização do estupro, a ponto de ser naturalizado pela sociedade e não trazer espanto e nem indignação. Esta cultura se fortalece pela mistura de ideologias de ódio, que se interseccionam. É muito fácil perceber a misoginia sendo gritada em discursos que culpabilizam as vítimas.²”

Na cultura do estupro, a vítima é, via de regra, questionada quanto a veracidade de sua denúncia, fato que dificilmente acontece com outros crimes, ou você já viu com frequência uma pessoa ser questionada quanto a veracidade de um relato de roubo ou assalto? É dentro desta lógica também, que ocorre uma disputa da realidade, que acaba por eufemizar formas de estupro que não obedecem o imaginário do senso comum – um homem desconhecido em alguma rua deserta, se que utiliza de extrema violência durante o ato.

De acordo com o art. 213 da Lei 12.015/09 do código penal, estupro é: “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso.” E de acordo com o Art. 217-A, estupro de vulnerável é: “Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos (…) Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no caput com alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência.”

Contudo, o senso de propriedade carregado pelos homens, e a objetificação cotidiana sofrida pela mulher, naturalizam outras formas de estupro, como as que ocorrem dentro de relações afetivo-sexuais. O estupro marital, com origem no surgimento da propriedade privada, ainda ocorre e é mais comum do que se imagina. A mulher/namorada/esposa/companheira/ficante ainda é vista como tendo obrigação de agradar sexualmente o homem, independentemente de sua vontade. A consensualidade é descartada em favor da manutenção de uma relação abusiva, da qual nem sempre a mulher se dá conta de que é vítima.

culturadoestupro6

No entanto, tal violência vem disfarçada de romance, sendo desta forma retratada em diversos filmes, novelas, livros, etc. O curta metragem “Je Suis Ordinaire” da francesa Chloé Fontaine aborda exatamente essa questão, nos provocando a pensar que nem sempre a vítima de estupro oferece resistência, mas isso não torna o fato menos violento:

O sexo sem consentimento tem raízes em valores profundamente arraigados em nossa sociedade a respeito do amor e da sexualidade feminina. Quando a mulher recusa o sexo e o namorado pergunta “O que está acontecendo? Você não me ama mais?”, existe uma mensagem implícita de extrema violência: a de que a demonstração de amor e afeto da mulher no relacionamento está diretamente ligada ao desejo sexual dela. E que, portanto, investir emocionalmente na relação significa estar disponível sexualmente.³”

É preciso que tenhamos em mente os diversos tipos de estupro que ocorrem de maneira silenciosa, em que muitas vezes nem a vítima tem consciência de que está sofrendo este tipo de violência:

  • Sexo (oral, anal, vaginal, masturbação) motivado pelas seguintes situações: para agradar o parceiro, por medo do parceiro ficar violento, porque o parceiro insistiu, por medo do parceiro trair;
  • Sexo oral, anal, vaginal, ou masturbação realizados sem consentimento;
  • Sexo sentindo dor porque o parceiro não parou mesmo notando o desconforto;
  • Sexo realizado com a pessoa desacordada, inconsciente, ou incapaz de oferecer qualquer resistência ao ato (independentemente da relação prévia entre os envolvidos);
  • Sexo sem preservativo por pressão do parceiro ou a retirada, sem consentimento mútuo, do preservativo durante a relação;
  • Agressões ou lesão corporal causadas durante o ato sexual.

Devemos pensar também, nas consequências físicas e psicológicas que a vítima de estupro terá que carregar consigo pelo resto de sua vida. É muito comum que uma vítima de estupro sofra com o Transtorno de Estresse Pós-Traumático, no qual a vítima sofre com lembranças constantes do ocorrido, ou sequer lembra do fato, mas apresenta crises de ansiedade e pânico ao reviver situações que tenham relação com o corrido, mesmo sem entender o porquê.

Essas vítimas podem adquirir ou ter agravados dos problemas de saúde prévios, como a depressão, chegando a extremos de ideação suicida e suicídio. É muito comum que estas vítimas convivam com distúrbios sexuais como dispareunia (dor durante a relação) e a incapacidade de sentir prazer durante o ato sexual, por longos períodos ou até por toda a sua vida, além da possibilidade de transmissão de DSTs e gravidez indesejada fruto de uma relação violenta e traumática.

Referências Bibliográficas:
  1. A Origem da da Família da Propriedade Privada e do Estado – Friedrich Engels, 1820.
  2. A cultura do estupro da sua origem até a atualidade – Verinha Kollontai, 2016. – https://feminismosemdemagogia.wordpress.com/2016/06/23/a-cultura-do-estupro-da-sua-origem-ate-a-atualidade/
  3. O Mais Ordinário dos Estupros – Patrícia Valério, 2017. – https://infame.us/2017/03/29/o-mais-ordinario-dos-estupros/

REPRODUÇÃO DE MACHISMO POR MILITANTES DO COLETIVO E NOSSA POLÍTICA DE COMBATE ÀS OPRESSÕES

No último mês recebemos diversas denúncias contra atitudes machistas praticadas por nossos militantes; bem como a denúncia de um caso de estupro praticado por um militante da local de Santa Maria. Diante da gravidade de tais denúncias, e compreendendo a necessidade de uma postura firme e responsável nossa enquanto coletivo, decidimos por um afastamento político imediato do militante em questão, voltando sua militância para reeducação sobre opressão de gênero; e nos colocamos ao lado das vítimas, prestando solidariedade e buscando estabelecer diálogo. Tais denúncias nos fizeram perceber que ainda temos muito a avançar no combate às opressões de gênero, nos colocamos em um movimento de reflexão e questionamento sobre o grau de entendimento dos militantes acerca desse debate, e como isso se reflete na nossa prática militante.

Enquanto coletivo entendemos que a consciência social é formada pela consciência oriunda da classe dominante, ou seja, somos socialmente formados em uma sociedade burguesa permeada de contradições que valorizam a individualidade, o mérito e é arraigada de opressões como o machismo, racismo e LGBTfobia. Sendo assim, nós enquanto militantes da esquerda, temos o trabalho constante de desconstrução dessas reproduções sociais e de conceitos historicamente consolidados com os quais nos deparamos diariamente. Longe da pretensão arrogante e pequeno burguesa de nos enxergar imunes a tais opressões, admitimos que ainda as reproduzimos dentro e fora do coletivo. Resta-nos analisar coletivamente a nossa política de combate às opressões e fazer a autocrítica de que ainda temos muito no que avançar, faltam inúmeros acúmulos, formação interna, apropriação do debate de gênero de forma equivalente tanto pelos homens quanto pelas mulheres do coletivo e, é claro, uma mudança na práxis diária, pois apenas por meio dela o processo de autocrítica é concretizado.

Como marxistas, nos propomos a romper com a lógica formal burguesa de análise da realidade. Acreditamos que apenas apontar para um erro individual não basta para que consigamos mudar a realidade e, no caso, acabar com o machismo e com a cultura do estupro. As opressões devem ser percebidas e apontadas, mas para além disso, necessitamos de uma visão profunda dessas questões, tentando compreender de onde elas vêm, quais sāo as raízes desses comportamentos e qual é a sua relação, não apenas com o indivíduo, mas também com a organização social em que este está inserido; para então pensarmos em como alterá-los coletivamente. Não devemos ignorar a existência de tais atitudes, jogar para longe dos nossos olhos; muito menos, apontá-lo e atribuir ao outro a responsabilidade de resolvê-lo.

Diante da necessidade de um avanço organizado e coletivo, o núcleo Outros Outubros Virão – Santa Maria, reconhece publicamente os atos machistas praticados pelo coletivo, assim como o estupro praticado há 3 anos atrás. Mesmo sabendo que o caso tenha ocorrido antes do recrutamento do militante, não iremos nos eximir da responsabilidade para com tal ato de violência. Estamos comprometidos com a reeducação não somente do militante em questão, mas sim de todo o coletivo. Temos consciência de que o afastamento político, o acompanhamento e a reeducação não irão mudar a violência sofrida e os traumas que ficaram na vítima, e que permanecem também em todas as mulheres a cada vez que se deparam com atitudes machistas que perpetuam a subjugação e inferiorização de gênero. Porém, acreditamos que ao debater essas questões, formular e expor nossa linha política de gênero, instrumentalizaremos ainda mais as mulheres de nossa classe para que essas se ergam, denunciem e se coloquem cada vez mais nos processos contra o capitalismo e a perpetuação do patriarcado. Por fim, deixamos nosso apoio às vítimas, nos colocamos a disposição do que for necessário e reconhecemos o atraso para lidar com essas adversidades de forma coletiva. Estaremos sempre abertos ao diálogo e empenhados para que situações como estas nunca mais ocorram.

Dê culpas, desculpas!

Uma vida de culpas
Me dê culpas, me desculpas?
Por aquilo que fiz ou não fiz
Mas que sou eu que tenho a culpa
E quem disse que é minha?

O capitalismo
O patriarcado
O machismo
O individualismo

A rotina
A produtividade  
A baixa autoestima
A ideologia

A submissão
A insegurança
A alienação
A falta de herança

Fui ensinada desde criança
A ter sempre paciência
A ter perseverança
E aos meus donos, obediência

E ainda tenho que lidar:
Com o medo de “ficar pra titia”
Ser conhecida como vadia
– “Engole o choro, minha fia”
Esperamos sua serventia!

A louça na pia, a casa limpar
essas são suas tarefas do lar
Ah, e os peão e os piá
pra cuidar

Pra quem bate ponto na fábrica
Não tem tempo pra defesa pessoal
E como se protegê
Se me ver presa de um “animal”?

Pra prole indesejada
Resta a oficina carnificida
Além de desafortunada
Tem que ser um tanto suicida

E ainda dizem que tenho o dom
Que sou privilegiada (!!!)
Oh, que ser abençoada!
Como se isso fosse necessariamente bom

A vida social negada
Nas relações me sentir abandonada
Na maioria das vezes usada
E ser chamada de mal-amada

Pro meu prazer ter vez
tem que ser limpinha
e a depilação em dia todo mês
Pode ser puta na cama
Mas na rua não pode ter fama

E se disser que estou insatisfeita?
Não posso nunca fazer desfeita
Mas com o tempo tudo se ajeita
Ah, e a comida já está feita?

E se acaso algo atormente
Eu é que sou a louca
e tudo bem se o “homi” mente
Tem que estar sempre disposta
E ainda por cima quente

Ser hipersexualizada
Por qualquer atitude vulgarizada
Pra minha boca “suja”: mal educada
Por ser preta, discriminada
Pra sobreviver ser explorada

Pela família rejeitada
Na política silenciada
Por ser mulher, subjugada
Pela polícia me sentir ameaçada

Em casa ou no trabalho:
o papel social de empregada
E isso é tudo que valho

A lista de tarefas inacabadas
dupla, tripla jornada
Uma porção de palavras entaladas
Uma vida amordaçada

O estupro
O insulto
A roupa curta
O ter que ser culta
A vida sexual oculta

O abuso
Sobre meu corpo
A mão indesejada,
O olhar a me despir
que me come por inteira
Quem não vive tudo isso
trata como brincadeira

Eu que tenho que carregar o nojo
A violência enraizada
Naturalizada a meu despojo

Física, racial,
Familiar, doméstica,
De gênero, moral,
Econômica, institucional,
Psicológica e sexual

“Tem que ter muito útero pra aguentar!”
A única alternativa é resistir e lutar!
À Deus, ao patrão, ao marido:
Peguem suas culpas,
juntas de nossa classe
ainda vamos nos libertar!

Coletivo Outros Outubros Virão, Maio de 2017.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: