E A UNIVERSIDADE COM ISSO?

[…] em seguida levaram alguns operários

Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
Bertolt Brecht

Mais uma vez, ficamos sem aulas. Mais uma semana que paralisamos as atividades universitárias. Seja por paralisação de professores, dos servidores técnico-administrativos, servidores da limpeza e jardinagem, vigilância, uma coisa é certa: a situação na Universidade não está fácil. Recentemente, tivemos trabalhadores de nossa Universidade que passaram mais de 2 meses sem receber seus salários; agora, os trabalhadores de vigilância do Estado da Bahia reivindicam o reajuste de seus salários, posto que os patrões só oferecem 1% (num período onde a inflação acumulada atinge 4%).

“Ué, e o que isso tem a ver com a gente?”, você pode se perguntar.

É simples. Basta retornar ao começo do texto. A luta dos trabalhadores e trabalhadoras se apresenta para nós, estudantes, em dois sentidos: primeiro, porque é quem trabalha que faz a Universidade acontecer. Seja nas salas de aula, nas atividades de limpeza, na burocracia universitária, na cozinha do RU, sem os trabalhadores (as), nós não temos condições de realizar a atividade principal da Universidade: a aula. Se não pagam os salários, se não têm condição digna de trabalhar, se estão sobrecarregados, a Universidade não vai funcionar. Então, em primeira instância, é fundamental que nós reforcemos e apoiemos as lutas da classe trabalhadora pra que a Universidade funcione o mais próximo possível da normalidade. Segundo, porque se estamos nos formando para, após a graduação, vendermos nossa força de trabalho no mercado, os direitos que teremos quando estivermos trabalhando terão sido conquistados por todos os trabalhadores (as) que vieram antes de nós. Como trabalhadores (as) em formação que somos, lutar lado a lado com a classe trabalhadora é também lutar pelo nosso futuro a partir do presente destes que já trabalham. Atualmente, nossos direitos estão todos sendo esmagados por um rolo compressor. Mas como isso se expressa na prática? Na generalização da terceirização, que irá abaixar nossos salários, nossas garantias e levar a situações como a das trabalhadoras da limpeza, que, por negligência da empresa, estavam a 2 meses sem receber (mesmo o Estado repassando a verba devida). Na desarticulação dos direitos trabalhistas, na medida em que flexibilizam a jornada de trabalho e, na universidade, expressão disso são as bolsas trabalho, onde o Estado obriga os estudantes a trocarem sua permanência na Universidade por trabalho mal remunerado em biblioteca, reitoria, departamentos. O mesmo Estado que, hoje, sucateiam as Universidades públicas, repassando menos orçamento que o necessário para manutenção (que dirá expansão!) das atividades universitárias, o que faz com que muitas vezes não tenhamos papel nos banheiros, prédios bem conservados, professores suficientes pra ofertar a grade completa. Dentro do contexto nacional, podemos ver isso se expressando no momento em que pretendem jogar nossa aposentadoria no lixo, deixando os trabalhadores desamparados nos momentos da vida em que mais precisam, além da flexibilização da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), permitindo que o “negociado sobreponha o legislado”, ou seja, não assegurando sequer um suporte legal fixo aos trabalhadores (as) no momento de negociar pelos seus direitos, deixando apenas a cargo dos patrões (já que é o lado privilegiado dessa relação) ditarem as regras do jogo.

Então, quando ficamos sem aula, não somos só nós, estudantes, que estamos perdendo. É uma situação que expressa a precarização das trabalhadoras da limpeza, dos vigilantes, da administração, da sala de aula; a precarização do próprio ensino público como tal e do conjunto de retiradas de direitos a nível nacional. “Se os trabalhadores perdem, se os estudantes perdem, se a Universidade perde, então por que a gente se mantém nessa situação?” Porque tem quem ganhe.

Os patrões, por exemplo, que podem aumentar suas margens de lucro à custa de trabalhadores recebendo menos e trabalhando mais. O Estado, que vai tirando o corpo da responsabilidade com o ensino público, deixando cada vez mais à nossa sorte de terminarmos os cursos da forma possível ou então migrarmos para um ensino particular caro, mercantilizado, escancarando assim que esse Estado está cada vez mais do lado dos patrões e empresários e contra os direitos da maioria da população.

Nesse cenário, qual futuro nos espera hoje?
Um futuro difícil, certamente, mas, sobretudo, de muita luta e resistência!

Assim, se queremos uma Universidade pública, gratuita e de qualidade; se queremos mudanças na nossa sociedade desigual, injusta, precisamos olhar ao lado e contar com aqueles/as que vemos. Quando os trabalhadores perdem, nós, trabalhadores em formação, perdemos também. Mas quando vencem, vencemos juntos. Assim, nesse momento onde nossa Universidade Estadual de Feira de Santana parece cada vez mais respirar por aparelhos, é fundamental cerrar fileiras e unir forças com trabalhadores da limpeza, da vigilância, da administração, da sala de aula, da indústria, do comércio, do campo, não só para garantir nossa sobrevivência atual na Universidade, lutando por mais orçamento, melhores condições de trabalho e estrutura na universidade, como também para defender nossos direitos historicamente conquistados, barrando as contrarreformas (previdência, trabalhista).

Por isso, gritamos:

NENHUM DIREITO A MENOS
PELA VIDA DOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS
EM SOLIDARIEDADE A GREVE ESTADUAL DOS VIGILANTES
CONTRA A PRECARIZAÇÃO E SUCATEAMENTO DA UNIVERSIDADE PÚBLICA
PELA CONSTRUÇÃO DA GREVE GERAL

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