Notas e apontamentos críticos sobre a conjuntura nacional, a disputa pelo DCE da UFSC e a reorganização do movimento estudantil.

26/09/2017

Junto ao momento de intensos ataques do qual vivemos, vem a necessidade da organização, coerente e combativa, de uma resistência. Em breve, na UFSC, irão ocorrer as eleições para o Diretório Central dos Estudantes e nós, do coletivo Outros Outubros Virão, sentimos a necessidade de nos posicionarmos em apoio à tentativa de unidade da esquerda, expressa na Chapa 1 – Ainda há tempo, porém ainda aproveitamos para pontuar algumas questões que estão dadas na conjuntura e na atuação da esquerda no momento, as quais desenvolvemos abaixo.

1. Aspectos conjunturais

Em meio a uma crise econômica, a economia brasileira se mantém estagnada e as taxas de lucro dos empresários tendendo à queda. Patrões precisam mexer nas peças do tabuleiro para tentar fazer sua lucratividade voltar a crescer. As medidas estratégicas utilizadas para isso nós já sabemos: massacre aos direitos e  pauperização da vida da classe trabalhadora. Para aplicar estas medidas e aumentar a exploração de quem trabalha, a burguesia se utiliza do Estado, seu balcão de negócios exclusivo e instrumento de dominação de uma classe sobre a outra. Já é uma realidade o que se falava sobre a PEC do teto, Escola sem Partido, Reforma do ensino médio, Reforma da Previdência, Reforma Trabalhista – a lista é longa – aumento do desemprego, fechamento de fábricas, parcelamento ou não pagamento do salário dos trabalhadores, aumento da chacina nas periferias, SUS sucateado, etc. O que vemos, é a realização do pacote iniciado no governo Dilma e agora sendo acelerado pelo governo Temer.

Essas medidas são sentidas em diversos âmbitos, inclusive na Educação, pois se direciona à verba pública que seria investida nas instituições de ensino, sucateando o público para salvar o privado. As universidades públicas estão sendo grande alvo desta manobra e, a UERJ, por exemplo, até fechou suas portas esse ano. No caso da UFSC, apesar da forte propaganda de “bons” orçamentos, vemos grandes contradições e presenciamos a precarização do ensino sob diversos ataques, como: a) corte orçamentário; b) restaurante universitário apresentando cada vez mais insuficiência em atender as demandas dos estudantes; c) as migalhas do que chamam de política de assistência estudantil não contemplando nem um terço de quem precisa desta para permanecer na universidade, culminando na frustração, desenvolvimento de problemas de saúde mental e desistência dos cursos; d) falta de materiais para aulas; e) falta de professores; f) HU, mesmo com sua privatização, com alas fechadas e sem capacidade de atender a população por falta de estrutura, materiais e pessoal (a privatização não ia resolver?!); g) cortes no CNPq; h) pós-graduação podendo ser paga de forma generalizada; i) a perseguição política de um servidor, ameaçado a sofrer exoneração por ter se envolvido na luta da categoria; j) e até o escândalo envolvendo a reitoria em casos de corrupção e desvio de verbas.

Neste momento, patrões e governo colocam toda a conta da crise nas costas da classe trabalhadora. Essa classe, porém, apresenta grande dificuldade de se organizar para barrar esses retrocessos. O aumento da perseguição política, de demissões sem justa causa e da repressão em cima de quem ousa resistir, obviamente dificulta a luta contra as medidas impostas, porém esta dificuldade também é trazida pela forte influência da crise do projeto hegemônico da classe trabalhadora das últimas décadas: o Projeto Democrático e Popular, o qual, não só no governo, mas também fora dele, continua a deseducar e desnortear a caminhada da classe trabalhadora.

O PDP marcou – e continua marcando – um ciclo de lutas da esquerda brasileira, sendo uma expressão particular da social-democracia no Brasil. A estratégia que permeia o projeto se voltaria a luta pelo fortalecimento de movimentos sociais, ao mesmo tempo que buscaria disputar o Estado, como forma de acumular forças, disputar a hegemonia e democratizar a participação das massas em suas decisões. Porém, o resultado desta estratégia foi o pacto de classes, já que para chegar ao poder, pagou o alto preço de reduzir seu programa à meras práticas eleitoreiras e coligações bastante questionáveis para quem se diz defender o interesse dos trabalhadores.

O Partido dos Trabalhadores, maior expressão deste projeto, teve seu processo de construção inicial “com a classe” e foi se moldando e se adequando a lógica do Estado, tornando-se, posteriormente, um partido “pela a classe”, período no qual, reduz a luta de classes em mera representatividade institucional e terminando “contra a classe”, servindo muito bem aos interesses da classe dominante. Sua influência se dá na política de conciliação para se manter no Estado, contribuindo para que as formas de luta nas bases também se adequassem a esta lógica, ou seja, de pactos sociais, burocratização, alianças com a burguesia e o reformismo.

Dentro do projeto do  governo petista era necessário manter a sustentação eleitoreira através de concessões para a classe trabalhadora. Essas  concessões vinham na forma de migalhas e políticas de assistência social. A burguesia, ao necessitar que o ritmo dos ataques fosse mais rápido, retira o PT e coloca o governo Temer, o qual aproveita perfeitamente do amortecimento e apaziguamento que o PT construiu no seio da classe trabalhadora para implementar o programa do capital.

Ao mesmo tempo em que estamos sofrendo fortes ataques da classe dominante neste momento de crise econômica, sofremos também de uma forte desarticulação e deseducação de como lutar contra esses retrocessos que ameaçam nossas vidas. Por isso, se faz urgente a construção de uma resposta para nossa luta, baseada em uma estratégia que coloque em cheque a verdadeira contradição do Estado burguês e da sociedade capitalista, e nós, estudantes, trabalhadores em formação, não estamos isolados dessa realidade.

2. Movimento Estudantil

É bem-sabido que o Movimento Estudantil cumpre importante papel dentro dos cursos e da universidade para a melhoria das nossas condições de ensino. Porém nós, do Coletivo Outros Outubros Virão, compreendemos que o Movimento Estudantil pode ir além da luta estudantil com um fim em si mesmo, isto é, compreendemos que a luta dos estudantes não está deslocada da totalidade de contradições que formam estruturalmente a nossa sociedade. Em nosso horizonte, lutar por educação gratuita e de qualidade faz parte do processo total da luta de classes, onde temos um  lado claro: a classe trabalhadora.

Podemos ver na universidade, o avanço do capitalismo e, ao mesmo tempo, a luta contra ele. Afinal, como pode, ao passo que a universidade pública se “democratiza”, ser também ameaçada de precarização e privatização? Neste sentido, estas contradições são percebidas e combatidas através das movimentações e luta dos estudantes, possibilitando que, a partir da apreensão das mesmas, possa se desenvolver a capacidade de pensar e elaborar uma concepção de educação contra-hegemônica, apresentando o movimento estudantil como aliado na elaboração e execução de um projeto da classe trabalhadora para uma nova sociedade.

Acreditamos que a consolidação dos nossos maiores anseios quanto ao acesso irrestrito à educação e o destino da produção de conhecimento para as necessidades da classe trabalhadora, depende, antes de tudo, da luta pela transformação radical dessa sociedade, para que não fiquemos mais a mercê de governos “bons” ou “maus”.

Embora essas considerações quanto ao papel do Movimento Estudantil na luta de classes sejam importantíssimas, elas não são nenhuma novidade. A história da nossa luta enquanto estudantes está inserida em um conjunto de lutas sociais que, por sua vez, está ligada à dinâmica da luta dos trabalhadores. Por isso mesmo, é claro que o movimento dos estudantes, teve, no último período – e ainda tem – forte influência do Projeto Democrático Popular na formatação de seu horizonte e sua prática.

No período ao qual nos referimos, o movimento estudantil foi marcado pela refundação da UNE, que aconteceu muito próximo à fundação do PT e da CUT, num período de intensas lutas da classe trabalhadora contra a ditadura. A UNE acompanhou a orientação petista de disputa da institucionalidade pela via eleitoral, tática que, com o tempo, deixou de ser via para acúmulo de forças e passou a ser um objetivo final. A luta de base, no local de estudo, deixou de ser priorizada para que os cargos políticos, ou mesmo os da entidade, tivessem prioridades.

Com o tempo, a direção perdeu sua base e ficou isolada no aparelho. Para continuar existindo, necessitou de enorme burocracia que enrijecesse e fortalecesse sua estrutura, baseada no movimento de gabinetes. A disputa pelo controle da UNE passa a ser a principal atividade das forças que a disputam, exigindo uma adaptação do movimento de esquerda aos seus métodos e estruturas, o que compromete as forças e energias militantes e desvirtua a luta concreta.

Vários são os setores do ME que irão compreender a necessidade da luta para além da disputa da UNE porém, além dos ineficazes instrumentos que nos são deixados de herança pelo PDP, este ciclo de lutas também nos deixa uma série de vícios que ninguém na esquerda está livre de reproduzir. Uma tarefa árdua a ser realizada é o rompimento com essas práticas antigas e a criação de novas, que não sejam reflexo do espírito anterior, marcado pela burocratização e deslocamento da base.

A  análise crítica da conjuntura nos traz elementos para o entendimento de que vivemos em um período de fortes ataques aos nossos direitos historicamente conquistados, mas também o entendimento de que há uma estagnação das lutas, pois, por mais que ainda exista muita vontade de resistir, há uma frustração generalizada quanto à organização dessas lutas que, ao reproduzirem práticas de um ciclo falido, acabam por não dar os resultados esperados. E pior: nossas tão suadas conquistas históricas acabam sendo facilmente esmagadas, como acontece agora.

Por fim, a apresentação dos problemas atuais da luta de classes nos coloca diversos desafios da luta total da classe trabalhadora. Dado o entendimento da importância que temos como aliados da busca do horizonte socialista, devemos nos perguntar por onde passa o caminho da resolução desta problemática, principalmente em nosso campo de atuação, refletindo não somente sobre a que pé andam nosso desenvolvimento teórico, mas também, por onde anda a nossa prática.

3. DCE

Como já apresentado, a necessidade de manutenção das taxas de lucro pelos capitalistas se materializa na ampla e progressiva precarização da vida da classe trabalhadora, na retirada de seus direitos sociais, com fins de mercantilizar todos os poros da vida. Neste momento de forte aprofundamento dos cortes contra as universidades, se põe como necessária uma grande mobilização, seja estudantil, seja dos trabalhadores da universidade, para que não haja nenhum direito a menos.

Dentro dessa conjuntura, a constante fundamentação da organização estudantil pela base se faz extremamente importante. Grande parte do movimento estudantil hoje, como herança do ciclo de lutas de conciliação de classes, se pauta em maiorias artificiais forjadas, apenas com intuito de disputar entidades como a UNE e até as entidades de base, como o DCE e em alguns casos, os CAs. O objetivo dessas disputas, ao ter um fim em si mesmo, é de continuar apenas buscando, dentro do sistema vigente, migalhas para os estudantes, sendo que na verdade precisamos mais do que isso, precisamos de mudanças reais na formação da classe trabalhadora. Além disso, uma luta meramente institucional pela direção de entidades, sem antes ter a construção cotidiana e o apoio das bases e dos estudantes e trabalhadores, têm pouco poder de barganha frente ao Estado e ao capital, ainda mais em momentos como o nosso de crise, no qual ganhos para os estudantes significam menos lucros para os empresários.

Nesse sentido, entendemos que o movimento estudantil na UFSC, de forma geral, se apresenta atrasado diante do seu maior desafio atual: a necessidade de sua organização a partir da base estudantil. Vemos isso pela falta de organicidade na construção por locais de estudo, e muitas vezes se apoiando na política de maiorias virtuais, utilizando repetitivamente de palavras de ordem vazias de conteúdo e desconexas com as necessidades reais da base, trazendo um enlaçamento frágil, quando há a necessidade de forte organização e resistência frente a graves problemas conjunturais. É visto isso, nitidamente, pelas fracas movimentações que as organizações políticas conseguiram atingir nos movimentos pela construção de uma greve geral em 2017. O personalismo, aparelhamento, conluio com reitores, e defesa cega de políticas praticadas pelo deposto governo Petista são práticas que reverberam o quanto o projeto democrático popular é enraizado dentro da ação estudantil na UFSC e em outras universidades do Brasil, e que explica, por muito, a fraca organicidade da esquerda do movimento estudantil na construção pela base, e sua alta propensão à criação de maiorias artificiais que não tratam de se pôr em movimento, quando há a necessidade da luta concreta.

Porém não podemos, por princípio, rechaçar a entidade representativa dos estudantes e sim entender sua potencialidade e capacidade organizativa, principalmente em um momento, como o apontado, de grande desgaste da esquerda como de profundos ataques do capital aos direitos, porém não podemos cair em uma na ilusão de que simplesmente a disputa pela entidade representa a solução de todos os problemas postos. A construção de uma disputa de DCE pela esquerda nesse momento se põe como um dos pilares – e não o principal – da luta estudantil contra a precarização da universidade e da possibilidade de usufruir a mesma. Ao mesmo tempo, acreditamos que não podemos esconder os problemas de nosso tempo que o movimento estudantil carrega, nem mesmo fechar os olhos aos problemas que da realidade conjuntural brasileira, descartando armas que conjugam, inevitavelmente, a vida diária da luta estudantil.

Frente a isso, nos posicionamos em apoio à unidade de esquerda que vem se consolidando através da Chapa 1 – Ainda há tempo, por entender, mesmo com a notável apresentação de vários elementos de urgente necessidade de superação em sua composição (apontados acima), que essa é a única chapa minimamente disposta a atender às verdadeiras demandas da base.

Ainda assim, entendemos que um DCE pode ir além. A esquerda precisa reaprender suas táticas de luta e ver que, conquistas de DCE podem tornar-se ações de performance vazias de seu conteúdo revolucionário, caso não haja disposição para se inscrever na construção  de um anterior e necessário processo de organização de base, cotidianamente, na luta econômica pela segurança e avanço dos nossos direitos, aliados à luta política pela unificação da classe trabalhadora em consciência para si, por uma nova sociedade.

Neste sentido, não deixamos de nos direcionar propositivamente, em primeira instância, à organização pela base e que supere a prática social da militância de esquerda construída no último ciclo, de forma a possibilitar novamente a sujeição do DCE à base estudantil, e não o contrário, pois é na base onde a política real pode solidificar-se e manter a capacidade organizativa frente aos cortes de direitos, que visam precarizar ainda mais a classe trabalhadora.

4. Reorganização do Movimento Estudantil

Visto que momentos de discussão política dentro da universidade, principalmente no que diz respeito à nossa necessidade organizativa enquanto massa de potencial transformador, tem se apresentado muito mais em períodos eleitorais, acreditamos ser importante ainda deixar algumas contribuições do que entendemos como caminhos de superação desse período de estagnação de lutas que vivemos para quando todo esse período de euforia passar.

Acreditamos que, para o momento, uma das palavras de ordem para a classe trabalhadora e, por consequência, para o movimento estudantil, é a necessidade de reorganização. Ou seja, precisamos superar respostas e projetos prontos que nos levem à ação irrefletida, já que nossa tarefa central é a transformação total da sociedade em que vivemos em aliança com a luta dos trabalhadores. Isso, na prática do Movimento Estudantil, significa que é preciso estudar e se organizar a partir das demandas colocadas na realidade cotidiana dos estudantes em seus cursos, se inscrevendo diariamente para a tentativa de romper com o ser social antigo e criar um novo, devemos romper impiedosamente com as práticas antigas.

O Coletivo Outros Outubros Virão compreende hoje como sua tarefa, e tarefa de qualquer organização ou coletivo comprometida com o avanço da luta dos estudantes em conformidade com a luta da classe trabalhadora, o fortalecimento e organização do movimento estudantil pela base. Para tanto, vemos como necessária a forte formação política comprometida com o inventário dos elementos que fundamentaram os marcos da última estratégia hegemônica de lutas no país, de forma a compreendê-la, para que não sejamos levados a cometer os mesmos erros. Esta trajetória deve envolver, para além dos estudos teóricos, a formulação e a militância prática nos locais de estudo, com os estudantes – e não em nome deles – sendo essa uma tarefa primordial a ser construída com nossas bases.

Acreditamos que as críticas construtivas servem para encontrarmos limitações, erros e contradições em nossas práticas. Por isso nos inscrevemos na tentativa de contribuir no debate sobre a resolução dos problemas de nosso tempo, expondo nossos apontamentos em relação ao Movimento Estudantil e a esquerda, nessa pequena especificidade de nossa realidade chamada UFSC, a fim de que, mesmo que marchando separados, possamos lutar juntos contra os ataques do capital e seu Estado e avançar por novas conquistas. Assim, é fundamental nos mantermos firmes, presentes e ativos em nossos locais de estudo, trabalho e moradia, aglutinando força e se reinserindo, para que, na luta cotidiana, junto com nossos erros e acertos, sejam forjados os militantes que venham a contribuir para a construção da ruptura com o capitalismo e a construção da Sociedade Socialista.

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Nota do Coletivo Outros Outubros Virão sobre os Congressos das Entidades Nacionais do ME

27/05/2013

Cabecalho outubros

O Coletivo Outros Outubros Virão vem se posicionar sobre os Congressos das Entidades Nacionais do Movimento Estudantil – UNE e ANEL – que ocorrerão entre os dias 30 de maio e 02 de junho de 2013.

Como já discorremos em outros textos, como no “Enterrar a insepulta UNE: Avançar na organização do movimento estudantil” e no “Entre o atraso e a precocidade, entre o velho e o novo, nem UNE nem nova entidade”, fazemos a análise de que as entidades devem estar respaldadas pelas movimentações reais de cada categoria. No ME, há anos a UNE expressa sua falência como representante efetiva dos estudantes, já que se encontra extremamente afastada das lutas dos estudantes e aparelhada com as políticas do governo, as quais precarizam cotidianamente a educação. Este descolamento da base estudantil tampouco foi solucionado pelo surgimento da ANEL em 2009, autoproclamada “direção” pelas organizações que a formaram, que também não responde à necessidade dos estudantes neste momento, por antecipar e artificializar um novo ciclo de lutas afastado das reais movimentações da classe.

Nesta nossa posição, compreendemos que a realidade encontra-se em contínuo movimento e que as análises e intervenções que realizamos devem ser coerentes com esse mesmo movimento. Isso significa que nossas avaliações não são estáticas e imutáveis, mas que devem ser sempre retomadas fazendo correspondência às lutas que percebemos na realidade brasileira. Desta forma, nossa análise do distanciamento dessas entidades do ME de sua base real, advém da nossa atuação com elas nos locais de estudo e executivas em que estamos, bem como das observações que já fizemos em congressos e espaços anteriores dessas mesmas entidades.

Sabemos que tanto a UNE quanto a ANEL são entidades que intervém de alguma maneira no ME nacional e local. Por mais que discordemos da maioria das práticas e concepções dessas entidades, não podemos ignorar suas existências. Sabemos também que são qualitativamente muito distintas em suas atuações e propostas no movimento estudantil – temos claro o papel da UNE ao lado do Estado, enquanto a ANEL se coloca como oposição e ao lado do ME combativo. Contudo, não nos propomos a construir nenhuma delas, já que, para nós, o ME tem outras prioridades neste momento.

Para dar conta de acompanhar o movimento, na tentativa fazer as análises mais qualificadas possíveis – isto é, condizentes com a realidade – decidimos ir como observadores a ambos os Congressos.

Para nós, essa decisão não significa de maneira alguma a construção ou disputa da UNE ou da ANEL, já que iremos em busca de elementos para nossas análise do ME e para a relação com esses coletivos/organizações, tal como fizemos em momentos anteriores – o que garantiu a materialidade de nossa crítica às práticas e conteúdos de ambas entidades. Não enviaremos delegados, não deslocaremos nossa base para esses espaços, nem faremos assembleias ou materiais para propagandeá-los.

Esta nota vem, portanto, no sentido de explicitar que estaremos em poucos militantes nestes congressos, com os objetivos acima citados. Pretendemos também reafirmar que consideramos importante a atuação nacional do ME, e por isso, atuamos em executivas de curso e na Articulação Nacional (espaço em que nos articulamos com outros coletivos do ME, que compartilham de muitas análises e que não veem a construção de uma entidade nacional como resposta para a reorganização do ME hoje). Compreendemos ainda que algum tipo de organização nacional dos estudantes – como uma entidade – deve ser resultado de um novo ciclo de movimentações e lutas do movimento estudantil. Assim, mais uma vez afirmamos que as tarefas prioritárias do ME hoje são a construção do trabalho de base, na busca de colocar os estudantes em movimento, numa relação cotidiana com eles, trazendo à tona as contradições dessa sociedade e as possibilidades de superá-la.


Exame de Ordem do Cremesp

21/08/2012

Esse texto consiste em um esforço do Coletivo Outros Outubros Virão em analisar em que contexto se insere o Exame de Ordem do Cremesp e que papel ele cumpre. Não se trata de uma abordagem específica de “a favor versus contra” o exame, posto que já foram extensamente produzidos materiais por outros movimentos, como a DENEM. É um esforço de entender, para além dos problemas pontuais da prova, como ela se encaixa perfeitamente nos projetos de saúde e educação médica implementados há algum tempo no país.

“Não é sinal de saúde estar bem ajustado a
uma sociedade profundamente doente”

J.Krishnamurti

Uma reflexão superficial a respeito da saúde nos faz chegar à conclusão de que ela não atende a interesses políticos ou de determinados grupamentos sociais, mas que tem um objetivo único de “aliviar a dor”, “melhorar a qualidade de vida”, curar doenças, cuidar da saúde de todas as pessoas.

Mas o que explica o fato de 5% das mortes infantis no Brasil serem devido à diarreia?1 Ou o fato de dois anos ser o tempo médio de espera para uma cirurgia da mão, enquanto nove meses é período máximo para evitar sequelas?2 Ou então que a falta de cuidados médicos é a principal causa de morte de 536 mil mulheres todo ano durante a gravidez e o parto?3 Como se explica o fato de que 80% das mortes por diabetes no mundo ocorrem em países pobres ou em desenvolvimento?4 Ou então que a doença sem tratamento faça com que 40 mil pacientes do SUS percam pés, dedos e pernas no país?5

Um aspecto que facilmente se percebe é que o acesso à saúde é dependente da posição social. Desta forma, os ricos têm acesso a melhores médicos, melhores hospitais, melhores remédios, exames e etc. Além disso, aqueles que não dependem do trabalho próprio para sua sobrevivência – os burgueses, detentores dos meios de produção – têm também melhores condições de evitar as doenças, pois têm melhores condições de vida. Ou seja, têm mais acesso a lazer, educação, alimentação saudável, atividade física, dentre outros. Além disso, não têm a saúde prejudicada pelo trabalho. Por outro lado, os que dependem do próprio trabalho para a sobrevivência – os trabalhadores – tem menos acesso àqueles fatores que melhoram as condições de vida. São também, diariamente, submetidos a condições de trabalho incompatíveis com padrões mínimos de saúde. São diariamente espoliados pelo trabalho.6 Enfim, é preciso entender que o acesso à saúde é desigual entre as diferentes classes sociais, mesmo com um sistema público de saúde universal.

Quando se observa mais atentamente o modo como se desenvolveu o acesso à saúde na História, percebe-se que esta não se deu de forma simples e linear, mas atendendo a interesses de uma complexa dinâmica econômica e política. Analisando-se, por exemplo, o Brasil, observa-se que os primeiros sistemas de seguridade social e de assistência médica só incluíam os marítimos e ferroviários, imprescindíveis para a exportação no início do século passado. Em um período posterior, por sua vez, com a industrialização crescente, percebe-se que todos os trabalhadores com carteira assinada são incorporados ao sistema público de saúde. Por que será que em um momento em que são essenciais à economia os marítimos e ferroviários, são justamente esses os que têm acesso a políticas de saúde? Em um momento seguinte – em que é necessária uma grande massa de trabalhadores para ocupar os postos da indústria crescente – são justamente esses que são incorporados ao sistema público? Não é por mera coincidência. Isso ocorre porque a saúde é estruturada para garantir que: 1) a produtividade do trabalhador seja a maior possível, sendo mais lucrativa ao Capital; 2) haja reposição e substituição dos trabalhadores ao garantir que tenham saúde mesmo os que não estão diretamente ligados à produção (desempregados, crianças, estudantes entre outros); 3) a existência de uma grande massa de trabalhadores desempregados aptos ao trabalho, constituindo um grande exército de reserva.

Nada mais lógico, portanto, que o sistema público de saúde se organizar para responder a essa demanda do próprio capitalismo. Qual a melhor maneira de um sistema público de saúde se organizar dentro dessa lógica? Não há necessidade de que seja um sistema com muito financiamento, com boas condições de trabalho para profissionais de saúde, sem filas de espera etc. Não é surpresa, portanto, que tenhamos lido nas manchetes de jornal um corte de R$ 5,4 bilhões no orçamento em saúde7 ou que as famílias respondam por mais da metade das despesas com saúde enquanto a menor parte fica a cargo do Estado.8 Os trabalhadores em saúde não são mais contratados por concursos públicos. Como consequência direta há a redução dos salários e a instabilidade no emprego. Esta instabilidade dificulta a luta destes trabalhadores, pois a demissão é utilizada como arma nos momentos de mobilização. A desmobilização acarreta salários ainda menores e piores condições de trabalho em geral a médio e longo prazos.

Cria-se, então, um novo desafio…

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Estudantes em greve ocupam Canecão, no Rio, por melhores condições de ensino

30/07/2012

Desde a noite terça (24), o movimento estudantil da Universidade Federal do Rio de Janeiro ocupa o antigo Canecão, nas imediações do campus da Praia Vermelha da UFRJ. De acordo com um dos diretores de Cultura do Diretório Central dos Estudantes (DCE), Felipe Camargo, o objetivo do protesto, que não tem prazo para acabar, é chamar a atenção para as reivindicações do segmento, também em greve nas várias instituições federais, por melhores condições de ensino.

No caso específico da UFRJ, os estudantes cobram mais bandejões, espalhados por todos os campi, e o funcionamento do ex-Canecão como um espaço inteiramente público para uso acadêmico e difusão da cultura.

Em manifesto, os estudantes explicam que a ocupação do prédio do antigo Canecão faz parte da semana nacional de ações radicalizadas orientada pelo Comando Nacional de Greve Estudantil (CNGE).

De acordo com o documento o movimento grevista no setor da Educação, que engloba mais de 95% das Instituições federais de ensino, explodiu no Brasil “por conta do acúmulo de problemas gerados depois de décadas sem investimento. Esse cenário se agravou pelo processo de expansão precarizada das universidades federais, que se iniciou em 2007, com a aprovação do decreto 6096/07: o REUNI”.

Ainda segundo o texto divulgado pelos estudantes o “descaso do governo para lidar com a greve também se reflete na Reitoria da UFRJ. No último Conselho Universitário, o movimento grevista compareceu em peso exigindo uma audiência pública sobre a EBSERH (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares – encarregada da privatização dos Hospitais Universitários). O atual reitor, Carlos Levi, se recusou a discutir com a comunidade acadêmica”.

Os estudantes convocam ainda toda a população carioca a se integrar e participar da ocupação. “Não são tempos de férias, são tempos de luta pelo futuro da educação brasileira, pelo destino dos jovens brasileiros. Queremos um mundo justo, e esse mundo está presente nesta Ocupação e em cada ato de rebeldia contra a situação de caos da Educação Pública”, concluem.

Veja aqui a íntegra do Manifesto da Ocupação do Canecão.


VII Assembleia Geral Estudantil

12/07/2012

É hoje, dia 12, quinta-feira.
Local: RU central
Horário: 18h30

Venha debater o andamento da greve e os próximos passos!


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