O momento é de fortalecer a pauta: pela tarifa zero!

20/06/2013

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“Do rio que tudo arrasta,
diz-se que é violento.
Mas ninguém diz violentas
as margens que o comprimem.”

Bertolt Brecht

Diariamente o trabalhador é obrigado a se locomover dentro de sua cidade, tanto para trabalhar, como para garantir sua alimentação (ir ao mercado), sua saúde (ir ao hospital), seu estudo (ir à escola), etc. Ou seja, deslocar-se de um lugar para outro é uma necessidade absoluta e irrefutável. Sob o sistema capitalista, no entanto, onde tudo se transforma em mercadoria visando o lucro, essa necessidade passou a ser um produto que precisa ser comprado para se ter acesso. Hoje, no Brasil, o transporte público é apenas subsidiado pelo Estado – a maior parte é tarifada e paga pelo próprio passageiro.

O aumento dessa tarifa foi o estopim das manifestações que vemos hoje espalhadas pelo Brasil e pelo mundo. O reajuste de R$ 0,20 na cidade de São Paulo, por exemplo, chegou a obrigar alguns trabalhadores a deixar de fazer refeições para conseguir pagar o novo valor das passagens. Indignada, a população foi às ruas cobrar a redução da tarifa – e foi massacrada.

Em mobilização, principalmente nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, os manifestantes foram vítimas da mais covarde repressão policial. Alguma novidade? Na verdade não. A sociedade capitalista é dividida em duas classes principais: burguesia, que detém os meios de produção e por isso é dominante, e proletariado, que por não ter nada além de sua força de trabalho é obrigada a vendê-la à burguesia. As duas classes vivem em conflitos constantes e, para não se devorarem mutuamente, surge o Estado, aparentemente acima de todos os conflitos. Neutro na aparência, o Estado na verdade atua em defesa da classe dominante e cumpre o papel de manutenção da ordem, ou seja, a manutenção dos privilégios da burguesia. Privatiza setores, aumenta tarifas, com o argumento de defender um suposto interesse geral, o que sabemos não ser possível, afinal, as classes antagônicas têm, consequentemente, interesses antagônicos. Quando os trabalhadores dizem não a essas falsas soluções e se levantam, o Estado se utiliza de seu braço armado (polícia ou exército) para fazer valer suas decisões.

Isso pode ser observado didaticamente com o movimento atual: os donos das empresas dos transportes são os que se beneficiam com o atual aumento, e o Estado – seja ele representado pelo PSDB, PT ou suas variantes, oposições, coligações – defende ferrenhamente seus interesses, sem economizar violência para isso. Ao mesmo tempo, o discurso do governo para a classe trabalhadora, de democracia e de melhoria das condições de vida da população, tornam-se totalmente o seu oposto, ou seja, o Estado mostra a quem serve.

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Os atos são a resposta que uma parcela dos estudantes (trabalhadores em formação) e dos trabalhadores têm dado à sequencial precarização das condições de vida a qual são submetidos diariamente em nome do lucro de poucos. Os aumentos sucessivos na exorbitante tarifa de transporte não garantem melhores condições de trabalho para motoristas, cobradores e metroviários, que cada vez mais têm sua saúde prejudicada devido ao alto nível de estresse a que são submetidos. A completa falta de estrutura do transporte público das cidades contribui para isso e é intolerável não só para quem nele trabalha, mas também para aqueles que dele se utilizam para chegar a seus locais de trabalho e estudo.

A mídia também tem cumprido bem o seu papel de manutenção ideológica da ordem. Criminaliza os instrumentos de luta que de fato são eficazes e que historicamente tem arrancado melhores condições de vida aos trabalhadores, mostram os manifestantes como “violentos” e dizem que isso tira deles toda a razão. Por vezes coloca como exagerada a ação da polícia, mas dificilmente se coloca a favor dos que lutam, tampouco aponta a violência a que são submetidos diariamente trabalhadores e usuários desse sistema de locomoção nada satisfatório.

Por esses motivos, damos total apoio às movimentações contra o aumento de tarifa, e colocamos nosso repúdio à criminalização dos manifestantes e à repressão da qual têm sido vítimas.

A luta é pela tarifa zero!

Diante da violência documentada que sofreram os manifestantes, com vídeos e fotos chocantes, o movimento ganhou corpo que há muito tempo não se via no país. Despontaram atos, passeatas e mobilizações em diversas cidades, a cada dia agregando um número maior de pessoas. Outras classes, pra além da trabalhadora, também se inscreveram na tentativa de sair na frente, de manter ou aumentar seus privilégios, até de forma oportunista.

Foi assim que uma pauta concreta, possível de ser alcançada – e por isso mesmo capaz de alavancar um processo de lutas ainda maior e mais intenso – perdeu força em meio a uma grande geleia amorfa de reivindicações, deixou de ser só sobre o aumento da tarifa e passou, de forma muito abrangente, a abarcar saúde, educação, corrupção… Isso significa, sim, que existe um sentimento de insatisfação geral. Mas considerando que o senso comum tende mais ao discurso da classe dominante, foi mais fácil para ela cavar seu espaço e dar um novo tom ao movimento. Agora os protestos abarcaram também um discurso pacifista, nacionalista e moralista, o hino nacional se transformou em palavra de ordem e as pautas começam a se esvaziar e se evaporar em “pela reforma política”, “contra a corrupção”, “contra a PEC X, Y e Z”.

Parte do movimento agora se esconde atrás de uma suposta neutralidade para pregar o apartidarismo. Erguendo suas próprias bandeiras, seja do Brasil, de um estado ou de uma pauta específica, esse setor nega que as organizações políticas tenham bandeiras nos atos, ameaçam e apedrejam quem se posiciona abertamente. Na mais otimista das hipóteses, a posição dita neutra fortalece a posição dominante. Mas o que também acontece é que as mobilizações por mudanças reais podem adquirir um caráter vazio, não mais pacíficos, mas passivos. O resultado é a abertura de espaço para a burguesia mais reacionária, que pode ganhar corpo e criar um espaço meramente nacionalista e carregado de muito preconceito.

Não me agradam as pátrias.
Nada me dizem as fronteiras,
talvez por serem bordadas em sangue
no corpo da minha bandeira.

Se tenho alguma sina,
que seja, então, brasileira,
mas antes do verde e amarelo
quero a aquarela inteira.

À Pátria que me pariu!
Mauro Iasi

Mas as centenas de milhares nas ruas do país nos mostram que ainda há muito para ser feito. O Coletivo Outros Outubros Virão se coloca em luta é contra a exploração diária que sofre o trabalhador, contra o gasto gigante que temos que ter para nos locomover, contra o absurdo de ter que trabalhar para pagar o transporte para ir trabalhar. O momento é de fortalecer a pauta: pela tarifa zero!


Apoio à chapa Rizoma – CAFIL UFPR

10/06/2013

O coletivo Outros Outubros Virão manifesta apoio à chapa Rizoma para a gestão do Centro Acadêmico de Filosofia (CAFIL) 2013/2014. Declaramos apoio às propostas de organização da chapa, que propõe uma gestão horizontal construindo as lutas no cotidiano dos estudantes, não em seu nome, mas com eles.

A organização do movimento estudantil da filosofia é um grande avanço para o movimento estudantil e consideramos importante para o ME da filosofia, da reitoria e da UFPR um Centro Acadêmico participativo e combativo, independente dos interesses da reitoria e de qualquer outra organização que não tenha em vista a melhoria de condições de ensino para os estudantes.

Vemos na chapa Rizoma, que participou ativamente da greve de 2012 e vem se mostrando séria e empenhada em relação às necessidades do curso, uma possibilidade de prosseguir com conquistas para a filosofia e para os estudantes da UFPR.

Todo apoio à chapa Rizoma!


Moção de apoio aos estudantes de medicina da UFScar

05/04/2013

Os estudantes de medicina da Universidade Federal de São Carlos deflagraram no dia 14 de março de 2013 greve estudantil. O curso de medicina encontra-se em situação alarmante. Alguns dos pontos levantados pelos estudantes são evidências explícitas do descaso com a educação médica: 1) o internato está em péssimas condições (é realizado em 3 cidades diferentes, sendo que os estudantes tem que morar em várias cidades com uma bolsa de R$200,00); 2) a rotatividade dos docentes, segundo os estudantes, é de 50%, o que nos comprova a baixa valorização docente no curso; 3) não há um currículo fixado, fazendo com que algumas turmas vejam inúmeras vezes um conteúdo e deixem de ver inúmeros outros; 4) os estudantes não contam com um Hospital Escola para atuação nos estágios, atuando diretamente na rede pública de saúde. Não há docentes, portanto, na rede, apenas profissionais que recebem uma bolsa de preceptoria. Devido à baixa remuneração e à péssima condição de trabalho, esses preceptores se demitiram em massa, inviabilizando as atividades práticas que ocupam grande parte da carga horária do curso. Segundo os estudantes, “No entanto, esse é apenas uma pequena parte do que está errado no curso”.

A UFScar é um caso em que se expressa claramente a política do Estado para a educação médica. Vivemos em um modelo econômico que tem como objetivo determinante de seu funcionamento a geração de lucro, a apropriação de mais-valia. O Estado, por sua vez, também é um instrumento para garantir esse objetivo.

Os profissionais de saúde, em especial os profissionais médicos, tem uma função importante para o funcionamento da nossa sociedade. Entre outros, garantem que os trabalhadores em geral estejam em condições de saúde mínimas para trabalhar e, portanto, gerar grandes lucros a seus patrões. Depois, como afirma Edson de Godoy Bueno, fundador da Amil, em entrevista à Exame, é uma ótima fonte de lucro. Como são esses os objetivos que determinam a função dos médicos, são também eles que determinam a formação médica.

Nesse contexto, para cumprir esses objetivos, não é fundamental que o médico em formação – o estudante de medicina – apreenda o conhecimento científico que fundamente a prática médica, nem que haja valorização docente ou mesmo que estejam disponíveis campos de estágios propícios para sua formação acadêmica. Só pode ser essa a concepção base para o documento da OMS em que se chega à conclusão de que é necessário “reformular o conceito de ensino em saúde sem vinculá-lo necessariamente a existência de hospitais universitários. Neste último caso haveria abandono da ideia de HU, ainda que pudessem ser contratados hospitais terciários (…)” (1). É o conjunto dessas medidas a síntese do que são, não só o curso de medicina da UFScar, mas os cursos de medicina em nossas universidades, sejam elas públicas ou privadas.

O Coletivo Outros Outubros Virão se coloca em luta com os estudantes grevistas da UFScar contra a precarização do ensino e do sistema de saúde. Considera a greve um instrumento importante de organização para nossas conquistas e coloca-se em luta contra as condições que nos reduz, os trabalhadores, a mercadorias que cumprem o único objetivo de gerar valor e mais valor.

(1) MÉDICI, A.C. Hospitais Universitários: presente, passado e futuro

Conquistas da greve unificada UFPR

13/09/2012

CONQUISTAS DA GREVE UNIFICADA - UFPR 2012

Nas duas últimas greves tivemos um grande avanço no que diz respeito a luta dos estudantes e trabalhadores por melhoria nas suas condições de ensino e trabalho. As três categorias da educação superior publica federal se uniram. Se uniram para clamar por mais justiça no trabalho. Por mais justiça na educação. Um exemplo é a luta contra a instalação da EBSERH, (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares) na UFPR. Mas por que barrá-la? Vamos a um breve contexto.

A EBSERH (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares), empresa pública mas de direito privado, foi criada para administrar os hospitais universitários federais (HU’s). O regimento interno da empresa previu a recomposição da força de trabalho dos hospitais, dessa forma os técnicos e funcionários das fundações não viam nenhuma garantia de manutenção dos seus empregos e a admissão de pessoal passaria a ser sob o regime da CLT.

Como todas as empresas de direito privado, a EBSERH segue a lógica de mercado e, portanto, seu fim último é o lucro. Sendo assim, com a implantação dessa empresa ficariam comprometidos os objetivos acadêmicos dos hospitais universitários, bem como o caráter de atendimento universal e gratuito à comunidade. E ainda, poderia acarretar no comprometimento da função primordial dos hospitais universitários, o de ser um hospital-escola, sem a garantia de que as aulas e estágios dos estudantes fossem prioridade e, assim, passando a funcionar como uma verdadeira empresa.

Está claro que, enquanto os estudantes, técnicos, professores e a comunidade em geral sairiam perdendo com a EBSERH, alguém sairia ganhando. Esse “alguém” é o capital, cujos interesses foram, mais uma vez, defendidos pelo governo federal.

Mas, devido à união da comunidade acadêmica da UFPR em defesa da autonomia da universidade, a EBSERH foi barrada em Conselho Universitário, no último dia 30 de agosto, de forma unânime e por aclamação!

Essa conquista não foi nada fácil, todas as categorias tiveram que construir atos e pressionar pela realização do COUN que barrou a EBSERH.

Não há vitórias sem luta!


Conquistas da Greve Estudantil UFPR

31/08/2012

Na XI Assembleia Geral dos estudantes, foi aprovada a última proposta de negociação feita pela reitoria. Mas como assim? Como tudo aconteceu? Vamos a um breve histórico.

As pautas estudantis foram construídas localmente, nas assembleias de curso e posteriormente trazidas ao comando geral de greve para que fosse possível montar um conjunto de pautas e, assim, formar um documento a ser entregue a reitoria e, dessa forma, dar início as negociações com a mesma. Consideramos tal documento um avanço muito importante em relação às greves anteriores, pois aprendemos a enxugar as pautas e sistematizá-las por eixos.

Nas primeiras “negociações”, a reitoria se posicionou de forma muito intransigente, o que levou, após semanas de reuniões, os estudantes a ocuparem a reitoria. Tal atitude foi a mais cabível encontrada como instrumento de pressionar a reitoria a avançar nas negociações, sendo deliberada em assembleia geral logo após o ato 3J que reuniu estudantes em várias partes do país. Durante esse processo de ocupação, foram criadas comissões responsáveis pela limpeza e conservação do prédio da reitoria e pela resolução de eventuais problemas, como a comissão de ética que liberou o acesso aos documentos necessários à comunidade acadêmica. Apesar disso, o movimento foi criminalizado pela imprensa e pela reitoria, que ameaçou os estudantes com penas administrativas e com possibilidade de expulsão da universidade.

Tendo em vista o período de mais de duas semanas de ocupação, as ameaças antidemocráticas da reitoria e possíveis cenários positivos (de avanço nas negociações e de conquista de pautas) no que tangia a desocupação, em Assembleia Geral (VI) os estudantes, como uma trégua, decidiram pela evasão do prédio. Contudo havia uma ressalva, a de que haveria novas radicalizações caso não houvesse avanço nas negociações após a desocupação, como prometido pela reitoria. Todavia esta apenas perante as pressões e radicalizações estudantis tais como atos, cartazes, ocupação, busca por ofícios nos setores e departamentos (SCHLA, Tecnológicas e Biológicas) é que concedeu boa parte das pautas reivindicadas, as quais foram aceitas pelos estudantes na ultima assembleia (XI).

Algumas conquistas da greve:

– Wirelles para toda a universidade;
– Adaptação interna e externa dos RU’s, Intercampi e Campis da universidade para o acesso aos portadores de deficiência;
– Livre acesso a biblioteca de ciências biológicas e ao CAEB;
– Compromisso da reitoria de viabilizar o Projeto do Centro de Eventos para o ano de 2013;
– Aumento em 25% do valor da bolsa moradia e do valor correspondente ao índice de inflação nessa e nas demais bolsas;
– Revisão dos critérios de concessão dos benefícios do PROBEM, visando ampliar o número de estudantes beneficiados em 2013;
– Estudantes poderão encaminhar solicitação da compra de livros e/ou assinatura de bases de dados às coordenações de curso, programas de pós-graduação ou aos comitês de usuário para aquisição, nos mesmos moldes e com os mesmos critérios dos docentes;
– Mais intercampi e em nova rota e horários;
– Garantia do funcionamento da linha intercampi (poli-centro) nos domingos e feriados, nos horários de refeição, para o deslocamento da comunidade universitária até o RU central;
– Transporte para todas as atividades formativas institucionalizadas;
– Implementação de bolsa estágio, iniciando pelos cursos com carga horária superior a 30h em 2013;
– Estabelecimento, através do Setor de Educação, de convênios na rede municipal e estadual de ensino visando a facilitação da escolha feita pelos estudantes em relação aos seus estágios.

Não há vitórias sem luta!

Comando de greve estudantil UFPR


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